domingo, 23 de maio de 2010

GUARANI, UM GRANDE POVO


No início do século XVI, quando os primeiros exploradores espanhóis cruzaram o Oceano Atlântico e adentraram ao Cone Sul Americano através do rio da Prata, seguindo pelo rio Paraguai e desembocando nas baías dos rios Paraná e Uruguai, tiveram a surpresa de encontrar em suas margens terras férteis de incrível abundância e produção agrícola.

Essas terras eram cultivadas há milhares de anos por um povo guerreiro que se auto-denominava AVÁ (que significa “humano”). Em séculos de contato, inúmeras foram as denominações dadas por seus inimigos (cários, chandules, chandrís e landules), até enfim este povo ser reconhecido como GUARANI, o Grande Povo.

Vindo de longas caminhadas, a partir da região amazônica, o povo Guarani se estabeleceu em diferentes partes do Cone Sul da América, fixando-se especialmente em territórios na Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Segundo levantamentos arqueológicos, esta migração teve início por volta dos séculos I e II depois da nossas era.

Historiadores calculam que, no início da invasão européia ao Continente, em 1492, a população Guarani girava em torno de um milhão e meio a dois milhões de pessoas.

Ao longo dos últimos 500 anos, o Povo Guarani tem criado e recriado suas estratégias de resistência, hora enfrentando forças militares, como os exércitos imperiais de Espanha e Portugal, hora encontrando aliados na sociedade envolvente, hora simplesmente se dispersando. Contra todas as formas de dominação (educativa, militar, econômica e religiosa), o povo Guarani foi capaz de manter seu espírito livre ao transformar em escudo de proteção o ininterrupto processo de transmitir de geração para geração sua língua e cultura e ter sua principal identidade cultural: a busca de YVY MARÃ’EY (Terra Sem Males).

Entre o Povo Guarani existem vários grupos que falam a mesma língua, têm cultura muito semelhante, mas que se auto-denominam de formas diferentes de acordo com a região e o ramo familiar. Entre as denominações estão PÃI-TAVYTERÃ ou KAIOWÁ, MBYÁ, ACHÉ ou GUAYAKÍ, CHIRIGUANOS, AVÁ KATU, AVÁ GUARANI ou ÑANDEVA ou CHIRIPÁ e GUARANI OCIDENTAIS DO CHACO.

Apesar da invasão, os Guarani teimam em resistir em seus territórios, inclusive nas periferias das grandes metrópoles do Mercosul, como em São Paulo e em Porto Alegre, onde sua economia de reciprocidade se contrapõe com o modo de vida individualista das capitais.


Não há um censo absoluto capaz de contabilizar exatamente a população Guarani na América do Sul. No entanto, a partir de dados oficiais e informações coletadas pelas principais organizações indígena e indigenista dos países, é possível estimar que a população Guarani esteja em torno de 225 mil pessoas, espalhados por cinco países do cone sul:

PARAGUAI – cerca de 53.500 pessoas, dos grupos Pãi-Tavyterã; Avá Katú; Mbya; Aché; Guarani Ocidentais, Nhandéva

ARGENTINA – cerca de 42.073 pessoas, dos grupos Mbya e Ava Guarani

BOLÍVIA – cerca de 80.000 pessoas, do grupo Chiriguano

BRASIL – cerca de 50.000 pessoas, dos grupos Pãi-Tavyterã; Mbya; Nhandéva ou Chiripá

URUGUAI – Os Guarani frequentam seu tekoha, mas não são reconhecimento do Estado e, por isso, não há uma censo feito.

Os Guarani são uma das maiores populações de um povo indígena em nosso continente. O país que apresenta a maior população Guarani é a Bolívia. Segundo os dados da Assembléia do Povo Guarani na Bolívia - entidade que representa a organização de 23 capitanias, que reflete a organização de mais de trezentas comunidades Guarani naquele país - a população seria de cerca 80 mil pessoas vivendo na região Sudoeste, em Santa Cruz e parte do Chaco. A Bolívia é o único local onde se encontra o grupo conhecido com Chiriguano.

O segundo país, com maior população, é o Paraguai. Segundo levantamento oficial, a população é de 53 500, e vive principalmente ao Leste do país, em regiões próximas à divisa com Brasil e Argentina. A terceira população se encontraria no Brasil, com cerca de 50 mil Guarani. E a quarta, com 42 mil, na Argentina, concentrando-se na região norte do país.

No Brasil, seguindo levantamentos feitos pela Fundação Nacional de Saúde e o Conselho Indigenista Missionário a estimativa é de que a população Guarani seja aproximadamente de 50 mil pessoas; 40 mil (ou seja 80%) vive no estado do Mato Grosso do Sul e os outros 10 mil (ou seja 20%) em terras tradicionais localizadas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e uma terra reservada no estado do Pará.


Texto da produzido pela Comissão de Lideranças e Professores Guarani Kaiowá
e Conselho Indigenista Missionário regionais Sul e Mato Grosso do Sul.

domingo, 9 de maio de 2010

OS TAINOS

Os TAINOS - algumas vezes chamados de ARAWAK - originaram-se na nascente do rio Orinoco, na Venezuela, viviam em vilas e praticavam a agricultura, cultivando milho, mandioca, batata-doce, goiaba, papaia, abacaxi, tabaco e algodão, do qual faziam roupas. Apanhavam mexilhões, ostras e caranguejos, caçavam pássaros, cobras, peixes-bois e tartarugas marinhas. Sua arte incluía pintura corporal e confecção de brincos, ornamentos para nariz, ornamentos labiais e cocares de plumagem colorida. Contas de pedra entalhada e enfeites conhecidos como ÇIBAS eram usados com outros feitos com uma liga de ouro, cobre e prata, conhecida como GUANÍN. Para os tainos, o caráter sagrado do guanín era, parcialmente, em virtude de seu cheiro, que remetia à sexualidade e à fertilidade. Os sofisticados utensílios de guanín encarnavam poderes ancestrais e, como tais, eram cerimoniais e trocados entre os chefes tainos.

Eram, também, especializados em carpintaria, entalhando bancos conhecidos como DUHOS, geralmente decorados com conchas e guanín. Os BEHIQUES (xamãs) sentavam-se nesses bancos e se conectavam com o mundo dos Ancestrais e dos Espíritos. Construíam grandes canoas elaboradas, viajando regularmente entre as ilhas do Caribe, mantendo uma rede de relações comerciais. A sociedade taina era governada por chefes hereditários, seu status era herdado pela linhagem materna. Os chefes podiam ter várias esposas, um indicador de que os casamentos eram, também, alianças políticas estratégicas, visto que mulheres de alta linhagem tinham sempre um alto status, que compartilhava com seu marido. Essa organização está refletida no tamanho e sofisticação das vilas taino; as maiores chegavam a centenas de casas comunais construídas ao redor de uma praça central, onde aconteciam todos os eventos religiosos e sociais, como danças e músicas cerimoniais chamadas AREÍTOS, e os jogos de bola de borracha chamados BATEY.

Escondida na região montanhosa do atual Puerto Rico, a cidade de CAGUANA possuiu o mais denso e elaborado grupo de campos de bola e praças de toda a sociedade taina. Em seu auge, por volta de 1350 d.C., Caguana era um centro cerimonial e provavelmente político, dominado por uma arquitetura que incluía imagens de criaturas mitológicas entalhadas em placas de pedras que franqueavam a praça central. A religião dos tainos baseia-se na tradição xamânica, que vê plantas, animais e paisagens infusas com a força espiritual derivada de seus ancestrais. Em tal universo espiritualmente animado, todas as coisas possuem dimensões sagradas e seculares, misturando-se de tal modo que nós, hoje, temos dificuldade de compreender.

A crença dos tainos de que os espíritos habitam lugares sagrados predomina sobres as cavernas: elas aparecem em seus mitos de origem como locais de emergência do povo Taino e como o lar dos Espíritos e dos mortos - os OPÍA -, transformados em morcegos. Uma das maiores cavernas-santuário dos Taino é a que hoje chamamos de LA ALETA, na República Dominicana, cujo auge vigorou entre 1035 e 1420 d.C., conservando ainda muitos artefatos cerimoniais de vime, madeira e cabaças. No fundo, os arqueólogos encontraram um monte submerso em cima do qual havia ferramentas de pedra, cerâmica, madeira e cestas espalhadas, tigelas decoradas, estatuetas de crocodilo, uma clave de guerra e uma "espátula do vômito" (utilizada para "purificar" o corpo antes e durante os rituais); tudo parece ter sido colocados lá deliberadamente, como oferta para Deuses e Espíritos Ancestrais.

O foco principal da religião Taino era a veneração de Espíritos conhecidos como ZEMÍS, a personificação de forças espirituais que habitavam as árvores, pedras, cavernas, rios e outros aspectos da natureza, cujos poderes eram incorporados em imagens sagradas - objetos tridimensionais, feitos em pedra, osso, madeira, conchas, argila e algodão combinados, tomando formas de pássaros, sapos, tartarugas e, as vezes, vegetais, como o aipim. Outros são mais abstratos, com desenhos geométricos entalhados ou pintados em pedras e artefatos. Mas sua forma mais comum eram as pedras pontiagudas, como miniaturas de montanhas ou de vulcões, mas talvez pudessem ser a representação de seios. Alguns apresentam rostos humanos estilizados, animais, criaturas fantásticas, metade humanas metade animais, que remetem às imagens vistas em transe xamânico. Os Zemis eram bem cuidados, recebiam alimento e eram esfregados com aipim; cada um tinha poderes diferentes, variando entre promover o sucesso do parto até conquistar a vitória em uma guerra ou aumentar a produção agrícola (quando enterrados nos campos de mandioca conhecidos como CONUCOS). Zemís de madeira demonstram a habilidade do xamã de ligar a vida cotidiana ao reino espiritual na cerimônia COHOBA, quando inalavam um pó alucinógeno a fim de se comunicarem com os espíritos, especialmente os de Ancestrais veneráveis. E, então, os Zemís concediam seus poderes aos artefatos e à paisagem, ligando o povo Taino a poderes cósmicos.

Os deuses Taino mais importantes eram YÚCAHU, da fertilidade e criador do aipim. Sua companheira era ATABEY, literalmente "Mãe das Águas", associada aos rios e à chuva que irrigam as plantações de aipim; ela também cuidava dos fluxos femininos e auxiliava no parto.

Baseado em texto de Nicholas J. Saunders

sábado, 1 de maio de 2010

A GAIOLA DOS PÁSSAROS GIGANTES II

O deserto de Palpa apresenta desenhos de um estilo absolutamente diferente dos outros geoglifos por sua concepção geometrizada, tornando-os obras-primas de estilização raramente igualadas.

Um desses desenhos é um BEIJA-FLOR que se lança à procura de não se sabe quala néctar naquela paisagem morta. A presença do beija-flor no deserto podeir aparecer de certo modo incongruente, mas ele abunda nos jardins de Lima, onde a temperatuura invernal frequentemente não ultrapassa 10º acima de zero. Na verdade, é encontrado por toda parte do Peru, tanto nos vales interandinos como na floresta amazônica e até no Altiplano do lago Titikaka, a 4.000 metros de altitude, onde vive em cavernas.

Asas abertas em triângulo, na horizontal, uma cauda larga prolongada por uma pena caudal, dão a perfeita ilusão do minúsculo passageiro do ar, do qual ele é a preciosidade. Exclusivo das Américas Central e do Sul, o BEIJA-FLOR, campeão das grandes manobras aéreas, de uma vivacidade incrível, voa tão bem para a frente como para o lado ou recuando, estabilizando-se em um ponto fixo através de um batimento de asas imperceptível, murmurante como a seda.

Coberto com uma fina penugem de reflexos cintilantes, apaenas um pouco maioir que um zangão, é também denominado "AVE-MOSCA". O naturalisata francês Jules-Charles de l'Écluse relatou, em 1601, um alenda muito bonita que explica este apelido. Ele se encontrava em Tournay, na companhia de um grupo de missionários jesuítas de retorno das "Índias Ocidentais", quando lhe contaram que os brasileiros davan a este minúsculo volteador o nome de OURISIA ou "RAIO DE SOL". O padre geral da Companhia de Jesus acrescentou, bastante seriamente, que o colibri era procriado por uma mosca! Como seu auditório se mostrasse incrédulo, para dar mais credibilidade ao seu relato, ele afirmou "ter visto com seus próprios olhos, um exemplar que, não havendo terminado sua transformação, era parte mosca e parte pássaro".

O jesuíta afirmou, sem seguida, que "as penas que cobrem o corpo do beija-flor são inicialmente negras, depois acinzentadas, ems eguida rosadas e vermelhas em definitivo". E ele concluiu que "se um raio de sol toca a cabeça do pássaro, descobre-sea em sua plumagem todas as cores que se possam imaginar". O que é verdade desta vez, se se acrescenta, como o padre Guevara, que elas são "irisadas de ouro, verde e azul". Este outro jesuíta introduziu uma variante na descrição precedente: o colibri nasce de um ovo único, mas ao invés de uma avezinha, é um "verme" que se forma, se desenvolve, "toma patas", uma cabeça e asas, começa a voar como uma borboleta e a se "manter no ar com um louca inquietude".

O cronista Francisco Lopes de Gomara informa que "o beija-flor se nutre de orvalho, de mel e do néctar das flores (...) que ele adormece em outubro e desperta em abril, quando há muitas flores". Por isto no Peru apelidaram-no de "o ressuscitado".

O franciscano B. de Sahagun observa que se atribuía ao colibri "o dom de curar as pústulas e mesmo de imunizar o homem (provavelmente contra a sífilis), em troca de uma esterilidade definitiva". E mais: "era o mais bonito presente que se fazia aos reis e príncipes".

Na mitologia andina, o colibri está associado à primavera e, em Machu Picchu é considerado "a alma das Virgens do Sol", reclusas após a invasão espanhola e que por lá morreram.

Nos museus, as vitrines guardam pares de colibris de ouro, com bicos em agulha, que ornavam os cilindros-brincos, os espelhos, os broches, espátulas e braceletes dos grandes personagens.

José Maria Arguedas, um dos melhores folcloristas peruanos, ouviu de um Aymara do alto planalto uma comovente história: penetrando um dia em um pukullu (tumba muito antiga em forma de pirâmide), ele encontrou ali um colibri de altitude. "Beija-flor, esemeralda verde, suplico-lhe que me ajude a venerar o coração da motanha!"
Baseado em texto de Simone Waisbard

quinta-feira, 29 de abril de 2010

AUTÊNTICOS EM 1500, HOJE OU EM 2154?

É comum jornais, filmes e comerciais de TV suporem que os índios são (ou deveriam ser) iguais àqueles descritos pelos primeiros cronistas, inteiramente exteriores ao universo ocidental. Nessa representação, o tempo transcorreu de modo absolutamente diverso para “brancos” e “índios”. Uns, os não indígenas, estão situados na História e se caracterizam pela variabilidade, mudança e complexidade. Os outros, os indígenas, são como estátuas de pedra, que apenas podem apresentar-se como idênticas ao que antes (supostamente) eram.

Recusar ao índio a História e o exercício da própria voz, imaginando-o apenas antes da chegada dos brancos, é um expediente útil para silenciar sobre o violento processo de colonização, propiciando uma autoanistia aos colonizadores. É essa categoria redonda, inteiramente infensa à História, plena de seduções e lisa de culpas, que o senso comum repete e consagra incessantemente. Em estudos anteriores, eu apontei um artifício narrativo que chamei de “o efeito túnel do tempo”. O artifício garantia a qualquer não índio, como em um passe de mágica, uma flagrante superioridade em relação a qualquer indígena. É também com base nisso que a tutela, apesar de autoritária e etnocêntrica, veio a ser simploriamente legitimada como instituto necessário e até filantrópico.


Tal idéia está muito viva nas mais variadas manifestações discursivas dos brasileiros: artes, literatura, chiste e linguagem cotidiana. Os índios seriam algo apenas relativo ao passado colonial do Brasil, havendo uma enorme e generalizada dificuldade em compreender os índios atuais.


O reconhecimento se limita a faixas da Amazônia, onde ainda haveria grupos isolados e arredios (“índios verdadeiros”). Os demais são ditos apenas “remanescentes”, índios “misturados” e, no limite, “falsos índios”. Pretende-se instituir uma polaridade entre as culturas indígenas “intocadas” (seriam as autênticas) e aquelas afetadas por “processos de aculturação” (seriam inautênticas). Partindo daí, setores da administração pública colocam em segundo plano as demandas de “índios” no Nordeste, seja omitindo se face ao reconhecimento de suas terras, seja criminalizando suas lideranças e enquadrando- as em um regime carcerário próprio de praticantes de crimes hediondos.


Os direitos indígenas, tais como definidos na Constituição de 1988 e na Convenção 169 (acolhida no Brasil em 2003), não decorrem, porém, de uma condição de pureza cultural a ser comprovada nos índios e coletividades indígenas atuais, mas sim do reconhecimento pelo estado de sua condição de descendentes da população autóctone. Trata-se de um mecanismo compensatório pela expropriação territorial, pelo extermínio de incontáveis etnias e pela perda de uma significativa parcela de seu patrimônio cultural.


Não é justificado estabelecer parâmetros arbitrários para definir o que é (ou o que deva ser) uma cultura indígena. A incorporação de rituais, crenças e práticas exógenas não necessariamente significa que aquela cultura já não seria “autenticamente indígena” ou pertencesse a “índios aculturados”. Para constituir analiticamente uma cultura, é preciso partir do que pensam, fazem e sentem os seus portadores atuais. É preciso libertar-se do efeito “túnel do tempo”, da abordagem objetificante e da relação tutelar.


Os debates sobre Belo Monte nos evidenciam essa complexidade. Ali se expressam as velhas concepções sobre os indígenas, que alimentam tanto argumentos desenvolvimentistas quanto ambiguidades do discurso tutelar. Manifesta-se também uma tensão no interior do novo paradigma, uma vez que os indígenas buscam exercer o seu protagonismo, mesmo assumindo posições temporariamente antagônicas — como no caso da aldeia Paquiçamba. Aprender a respeitar e a lidar com a contemporaneidade do indígena será um aprendizado importante para as autoridades.



Os embates ideológicos fizeram curiosamente reviver o potencial utópico da figura do índio, apropriando- se agora da poderosa máquina de fabricação de mitos que é o cinema e remetendo-os ao futuro. A retórica dos ecologistas estabeleceu um paralelo entre os Na’vi e os indígenas atuais da região, visando a apontar os riscos para o ecossistema amazônico e mesmo planetário. A disputa pela autenticidade remete agora a 2154!


Texto de João Pacheco de Oliveira

quarta-feira, 28 de abril de 2010

ECOLOGIA MENTAL

No dia 02 de Fevereiro de 2007, ao ouvir em Paris os resultados acerca do aquecimento global dados a conhecer pelo Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC), o então Presidente Jacques Chirac disse: "Como nunca antes, temos que tomar a palavra revolução ao pé da letra. Se não o fizermos, o futuro da Terra e da humanidade é posto em risco".

Outras vozes já antes, como a de Gorbachev e de Claude Levy Strauss pouco antes de morrer, advertiram: "ou mudamos de valores civilizatórios ou a Terra poderá continuar sem nós".

Esse é o ponto ocultado nos fóruns mundiais, especialmente o de Copenhague. Se for reconhecido abertamente, ele implica uma autocondenação do tipo de produção e de consumo com sua cultura mundialmente vigente. Não basta que o IPCC diga que, em grande parte, o aquecimento agora irreversível é produzido pelos seres humanos. Essa é uma generalização que esconde os verdadeiros culpados: são aqueles homens e mulheres que formularam, implantaram e globarizaram o modo de produção de bens materiais e os estilos de consumo que implicam depredação da natureza, clamorosa falta de solidariedade entre as atuais futuras gerações.

Pouco adianta gastar tempo e palavras para encontrar soluções técnicas e políticas para a diminuição dos níveis de gases de efeito estufa se mantivermos este tipo de civilização. É como se uam voz dissesse: "pare de fumar, caso contrário vai morrer"; e outra dissesse o contrário: "continue fumando, pois ajuda a produção que ajuda a criar empregos, que ajudam a garantir os salários, que ajaudam o consumo que ajuda a aumentar o PIB". E assim, alegremente, como nos tempos do velho Noé, vamos ao encontro de um dilúvio pré-anunciado. Não somos tão obtusos a ponto de dizer que não precisamos de política e de técnica. Precisamos muito delas. Mas é ilusório pensar que nelas está a solução. Elas devem ser incorporadas denro de um outro paradigma de civilização que não reproduza as perversidades atuais. Por isso, não basta uma ecologia ambiental, que vê o problema no ambiente e na Terra. Terra e ambiente não são o problema. Nós é que somos o problema, o verdadeiro "Satã" da Terra, quando deveríamos ser seu "Anjo da Guarda". Então: importa fazer, consoante Chirac, uma revolução. Mas como fazer uma revolução sem revolucionários?

Estes precisam ser suscitados. E que falta nos faz um Paulo Freire ecológico! Ele sabiamente dizia algo que se aplica ao nosso caso: "Não é a educação que vai mudar o mundo. A educação vai mudar as pessoas que vão mudar o mundo". Precisamos destas pessoas revolucionárias, caso contrário, preparemo-nos para o pior, porque o sistema imperante é totalmente alienado, estupificado, arrogante e cego diante de seus próprios defeitos. Ele é a treva e não a luz do túnel em que nos metemos.

É neste contexto que invocamos uma das quatro tendências da ecologia (ambiental, social, mental e integral): a ECOLOGIA MENTAL. Ela trabalha com aquilo que perpassa a nossaa mente e o nosso coração. Qual é a visão de mundo que temos? Que valores dão rumo à nossa vida? Cultivamos uma dimensão espiritual? Como nos devemoso relacionar com os outros e com a natureza? Que fazemos para conservar a vitalidade e a integridade de nossa Casa Comum - a Mãe Terra?

Não dá, em poucas linhas, para traçar o desenho principal da ecologia mental. O primeiro passo é assumir o legado dos astronautas que viram a Terra de fora da Terra e se deram conta de que a Terra e a Humanidade formam uma entidade única e inseparável e que ela é parcela de um todo cósmico. Segundo, é saber que somos Terra que sente, pensa e ama, por isso homo (homem e mulher) vem de húmus (terra fecunda). O terceiro, que nossa missão no conjunto dos seres é de sermos os guardiães e os responsáveis pelo destino feliz ou trágico dessa Terra, feita nossa Casa Comum. O quarto, é que junto com o capital natural que garante nosso bem-estar material, deve vir o capital espiritual que assegura aqueles valaores sem os quais não vivemos humanamente, como a boa-vontade, a cooperação, a compaixão, a tolerância, a justa medida, a contenção do desejo, o cuidado essenciala e o amor.

Estes são alguns dos eixos que sustentam um novo ensaio civilizatorio, amigo da vida, da natureza e da Terra. Ou aprendemos estas coisas pelo convencimento ou pelo padecimento. Este é o caminho que a história nos ensina.

Texto de Leonardo Boff