domingo, 29 de novembro de 2009

TUPA E A ERVA-MATE

Na crença Guarani, TUPÃ é o Espírito do Trovão e Protetor da Chuva. Ele é parte da família do Grande Criador - NHANDE RÚ ETE (Nosso Pai Verdadeiro) para os Guarani M'byá; HANDE DJARA (Nosso Senhor Altíssimo) para os Guarani Nhandeva ou NHANDE RÚ VUSSÚ ( Nosso Pai Imenso) para os Guarani Kaiová. É Tupã quem torna a terra fértil todos os anos através dos brilhos de fogo (Tataendy) raios e chuvas. Fato cientificamente comprovado: os raios energizam a terra para que ela se torne fértil. Para o Guarani existem duas estações de ano: o Recomeço (Primavera e Verão) e a Dormência ou Descanso da Natureza (Outono e Inverno). Tupã está associado à primeira!

Já nas crenças de grande parte dos povos Tupi, TUPÃ é o Pai Maior, aquele que habitou a Terra. Todos os homens descendem de Tupã. Junto com Tupã, os principais Deuses são chamados de Mãe como GuaráCy (Mãe-Sol) que nos dá a sustentação no espaço e nos dá o calor; JaCy (Mãe-Lua) que nos dá os sonhos e a luz durante a noite e alguns elementos da Terra durante o dia... como a água, por exemplo; e YbiCy, a Mãe Natureza ou a Mãe-Terra.

Contam os mais velhos que em algum lugar no meio das coxilhas, vivia uma tribo guarani cujo cacique tinha muita fama de valentia, bravura e sabedoria. Era um exemplo para seus comandados. Todos os índios queriam ser como ele, lutar como ele, caçar como ele, ter o conhecimento de tudo o que ele sabia. Outro motivo de orgulho para o cacique era a sua linda e formosa filha, Caá-Yari, muito admirada pelos jovens guerreiros.

Mesmo com tantas razões para ser um homem altivo e feliz, o chefe índio andava acabrunhado, triste... Uma tristeza vinda lá do fundo da alma. O cacique estava se enveredando pelos caminhos da velhice e tinha medo de ficar sozinho.

Além disso, estava preocupado com sua sucessão. Não tinha filho homem e precisou escolher para sucedê-lo o mais valoroso entre os guerreiros da tribo. Justo o bravo pela qual sua filha Caá-Yari estava apaixonada. Era um grande problema a afligi-lo. Pela lei dos guaranis, a mulher do chefe da tribo tinha de acompanhá-lo em quaisquer de suas viagens, fossem caçadas, fossem batalhas, fossem missões de paz ou a busca de novas terras. Assim, se Caá-Yari casasse com o guerreiro escolhido para se tornar o novo cacique, muitas vezes teria que se ausentar da tribo. Com a filha longe, o velho chefe não sabia se ia agüentar continuar vivendo.

Caá-Yari conhecia as apreensões do pai. E para não magoá-lo, a bela índia amava seu adorado em segredo. A filha zelosa sabia que, só com o pensamento de vê-la longe, o cacique caía numa melancolia danada.

O desprendimento de Caá-Yari era percebido pelo chefe indígena. Sua dor e angústia eram tantas que decidiu procurar TUPÃ, o Grande Pai, aquele que costuma ordenar todas as coisas do mundo. O cacique tinha consciência de que não poderia exigir a presença da filha ao seu lado para sempre e pediu a Tupã que lhe desse um companheiro para as horas de solidão. Como forma de atender o pedido, Tupã mostrou ao cacique uma árvore grande, de folhas verdes. Dessa árvore mandou que o índio retirasse, secasse e torrasse as folhas, fazendo com elas uma bebida amarga e quente, mas deliciosa. Seria sua companhia para quando ninguém estivesse junto a ele. Para preencher o vazio da saudade. E assim foi criada a erva-mate.

Tupã também ensinou o cacique a partir o porongo e a fazer um canudo de taquara. Junto com a erva, surgiram a cuia e a bomba do chimarrão. Arraigando-se ao hábito da nova companhia, o cacique pôde finalmente confirmar seu sucessor como legítimo líder da tribo e, ao mesmo tempo, abençoar a união dele com sua filha. Agora, quando os dois jovens estivessem longe, o velho índio teria sempre ao seu lado o antídoto para espantar a tristeza.

Por ter sido a razão principal do surgimento da erva-mate, Caá-Yari passou a ser o espírito protetor dessas árvores.

Baseado em texto de Heitor Kaiovám e do Centro Cultural Gaucho

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