segunda-feira, 4 de abril de 2011

YVY MARAE'Y TETÃ GUARANI MBARETEVERÃ

A Terra sem Mal para o fortalecimento da Nação Guarani

"O território e tudo que nele existem são direitos fundamentais aos quais não renuncia e nem renunciará a Nação Guarani por que é parte de sua existência” (Documento Final do II Encontro dos Povos indígenas, março de 2011) “ Que a garantia e demarcação das terras seja feito conforme o direito consuetudinário”, expressam as lideranças Guarani no documento.

Jaguati, aldeia Paí Tavyterã (Kaiowá Guarani) no departamento de Amambay, no noroeste do Paraguai, na fronteira com o Brasil. Lugar sagrado, situado entre os cerros Jusaka Venda. Para os Paí, daí surgiu o Deus Criador, o Grande Avô, Ñande Ru. A calma aldeia, transformou-se em cenário agitado com a construção de várias oga guasu (casas grande tradicionais), para receber mais de mil Guarani dos cinco países da América do Sul. O Encontro foi organizado pelo Conselho Guarani do Paraguai.

Em fevereiro do ano passado se realizou o primeiro encontro, que estava previsto para acontecer em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Mas em função das posturas adversas do governo do estado e polítcos contrários aos direitos indígenas, o Encontro acabou sendo realizado na aldeia de Añetete, no Paraná. Em novembro do ano passado o Movimento Guarani organizou seu terceiro Encontro Continental, no qual foi eleito o Conselho Continental dos Povos Guarani.

No encontro de Jaguati – 23 a 26 de março - participaram em torno de 1.000 Guarani dos cinco países. Apesar de haver algumas apreensões com relação aos possíveis pressões dos governos, em função da comemoração do bicentenário da independência do Paraguai, e do interesse dos países em não aprofundar questões polêmicas como a questão da terra, recursos naturais, violências... foram exatamente estes os temas nos quais houve não apenas debate mas também posicionamentos enérgicos expressos no documento final de cinco laudas. Com relação ao Bicentenário foram enfáticos “ não é um acontecimento para celebrar porque para nós só foram 200 anos de despojo, discriminação, humilhação, avassalamento, perseguição, saqueio e morte” (HU, idem).

Conforme o jornal Ultima Hora, o texto aprovado na plenária na manhã do dia 26, “contem uma enérgica exigência de restituição das terras, de reconhecimento político da Nação Guarani , o fim dos assassinatos e o rechaço ao Bicentenário”.

No Encontro também expressaram que” apesar da natureza pacífica dos povos Guarani expressaram suas exigências para por fim às fronteiras agrícolas, a soja transgênica e os agrotóxicos que destroem e envenenam tudo”(UH). No documento também exigiram autonomia pedagógica que permita aos povos originários definir seus modelos e reconhecer os anciões como mestres reconhecidos por serem depositários de sabedoria milenária e pedagógicas, dentro do respeito à sua língua, usos e espiritualidade, bem como a incorporação de seus anciões. Outro aspecto importante do documento foi a” reivindicação e exigência de respeito à autonomia e livre-determinação da Nação Guarani, seu direito coletivo de decidir como viver, como aplicar nossas pautas e normas e como nos desenvolver”. Também exigiram aos governos do Mercosul “ livre transito com um documento de identidade transterritorial”. Outro aspecto expresso no documento é o pedido de “indenização das comunidades afetadas em todos os casos em que os não indígenas exploraram e destruíram a terra e os recursos naturais dos territórios e tekoha. Fizeram também um apelo aos Estados Nacionais a por fim à “criminalização dos povos originários e o cessar da perseguição e morte de seus irmãos e líderes. Ao mesmo tempo pedem justiça em todos os casos de detenção, desaparecimento e morte, com julgamento penal e civil dos assassinos e criminosos que atentaram ou atentam contra qualquer membro da Nação Guarani e suas organizações” (UH-idem).

Otoniel Ricarti Kaiowá, um dos participantes da delegação do Brasil, avaliou o encontro como um avanço na luta do povo Guarani por seus direitos, especialmente a terra, e a construção de sua autonomia. Destacou a importância do reconhecimento e fortalecimento do Conselho Continental Guarani, como instância de articulação.


Um dos momentos bastante esperados era com as autoridades, às quais iriam manifestar seus posicionamentos, exigências e entregar os documentos. Por volta das 15 horas chegaram o presidente do Paraguai e o vice-presidente da Bolivia.

Além das manifestações indígenas estavam também sendo muito esperadas as manifestações das autoridades. Lugo, que conhece muito bem os Guarani, com os quais trabalhou, e cuja realidade elegeu como uma de suas prioridades, manifestou “meu respeito e admiração para este povo Guarani que viveu recebendo todo tipo de vexames, de marginalização...” e finalizou expressando “agradecimentos por seguir ensinando-nos, por sua resistência tenaz, pacífica. Por dar-nos este sonho, esta utopia que não se perde nunca. Poderão passar 500 anos mais, porem o povo guarani seguirá crendo e caminhando até a terra sem males”.

Alvaro Linera fez um extenso relato sobre vicissi
tudes enfrentadas pelos povos indígenas no Bolívia, até a chegada de Evo Morales – Aymara, à presidência do país.
Texto de Egon Heck
Fonte da notícia: CIMI

II ENCONTRO DA NAÇÃO GUARANI

COMUNIDADE INDIGENA PAÏ TAVYTERÄ, JAGUATI
DEPARTAMENTO DE AMAMBAY – PARAGUAI, 24 A 26 MARÇO DE 2011


Os representantes de diferentes comunidades e organizações da Nação Guarani de Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil reunidos na comunidade indígena Paî Tavyterâ de Jaguati do departamento de Amambaí, República do Paraguai, e seguindo os lineamentos e propostas do I Encontro dos Povos Guarani da América do Sul realizado em Tekoha Añetete, município de Diamante D’Oeste, estado de Paraná, realizamos a seguinte declaração com o lema Yvy maraê’y tetã Guarani mbareteverã, e no espírito de nossos ancestrais e nossos inumeráveis irmãos que morreram ao longo destes séculos, na resistência, por manter sua identidade, dignidade como povo e suas tradições, seu modo de ser, sua cultura.


Considerando

  • Que a Nação Guarani sempre se desenvolveu e transitou em um espaço territorial sem fronteiras e sob estrito domínio de suas normas de convivência e seus costumes.
  • Que para o Guarani seu território é o lugar onde viviam seus ancestrais e onde se articulam a biodiversidade, a cultura e a espiritualidade.
  • Que a identidade, pensamento e espiritualidade Guarani, constituem a base da cultura que acredita na unidade inseparável da natureza e o ser humano, que protegeu sempre seu entorno e acreditou com respeito nos elementos: o fogo, o ar, a terra e a água, como geradores de vida.
  • Que culturalmente a Nação Guarani mantém una convivência pacífica, porém uma postura firme e decidida na defesa de seus irmãos, seu território e sua cultura.
  • Que tem como um valor fundamental a palavra que se traduz em sua língua milenar que resistiu a séculos de conquista, exploração, opressão, descriminação e destruição em alguns casos.
  • Que as reclamações e reivindicações da Nação Guarani não têm resposta efetiva de parte das autoridades e governos dos Estados que se assentam sobre seu espaço territorial ancestral.Que a Constituição, o convênio 169 da OIT, a Declaração Universal dos DDHH das Nações Unidas, as leis, tratados e convenções internacionais que protegem os direitos dos povos originários, entre eles o Guarani, não são cumpridos pelos diferentes governos de países nos quais em seus territórios se encontram assentadas comunidades guaranis.
  • Que os distintos povos da Nação Guarani cada vez perdem mais território e seus habitantes submetidos a situações infra-humanas, sem garantias mínimas de saúde vivenda e alimentação.
  • Que a ampliação agressiva da fronteira agrícola que dá passo ao cultivo intensivo e mecanizado de soja transgênica envenena a terra, os cursos de água e as populações guaranis que vivem em suas proximidades, abandonadas pelos governos e seus órgãos de assistência integral e de proteção.
  • Que a educação indígena, em quase todos os países da territorialidade Guarani, segue reproduzindo o modelo ocidental da transculturalização e assimilacionista, violando o princípio de autodeterminação e autonomia no desenvolvimento de pedagogias originárias, saberes e conhecimentos próprios para a transmissão de costumes, usos e tradições e manter assim sua cultura, a ética ancestral e os valores consuetudinários.
Exigimos:

1. A consulta e participação permanente e oportuna à nossa Nação por parte dos poderes do Estado em todos os casos que afetem nossos povos originários e em especial para a elaboração, sanção e promulgação de leis.


2. O cumprimento por parte dos governos nacionais, departamentais e municipais e os Estados (os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) das leis, em particular o Convênio 169 e a Constituição Nacional, normas de proteção e de direitos da Nação Guarani.


3. O respeito à autonomia e a livre determinação de nossos povos que constituem nosso direito coletivo a decidir como viver, como aplicar nossas pautas e normas e como nos desenvolver.


4. O reconhecimento político de nossa nação por parte dos países assentados sobre o espaço territorial ancestral guarani e de sua livre determinação.


5. O livre trânsito por nosso território ancestral porque as fronteiras não existem para nossos povos porque preexistimos antes que os Estados.


6. O respeito e proteção do espaço territorial da Nação Guarani que inclui não só a propriedade da terra sino o espaço geográfico onde ancestralmente se desenvolveu e desenvolve atualmente a cultura guarani.


7. A proteção de os recursos naturais, em especial o aqüífero guarani que forma parte do subsolo da territorialidade de nosso povo que abarca Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.


8. Indenização pelo uso, exploração e destruição da terra e de outros recursos naturais dos territórios e tekoha guarani.


9. A garantia e a efetiva demarcação das terras.


10. O fim da criminalização dos povos originários e o fim da perseguição e morte de nossos irmãos e líderes.


11. Justiça em todos os casos de detenção, desaparecimento e morte de nossos irmãos.


12. Julgamento de responsabilidade penal e civil aos assassinos e criminosos que atentaram o ou atentam contra qualquer membro da Nação Guarani e suas organizações.


13. Proteção e respeito ao direito coletivo sobre os saberes, espiritualidade, usos medicinais e demais demonstrações e expressões de nosso patrimônio cultural material e imaterial.


14. O cumprimento das leis sobre proteção ambiental, com maior rigor nos casos de cultivos com usos de agrotóxicos que destroem comunidades, envenenam os cursos de água e a terra, destrói a biodiversidade, em especial a vida humana.


15. Garantia política social à Nação Guarani desde seus próprios usos, costumes e tradições.


16. O respeito e declaração da língua guarani como idioma oficial nos países situados sobre a territorialidade da Nação Guarani.


17. A vigência imediata de educação diferenciada e específica utilizando nossas próprias línguas; e a formação dos professores com cosmo-visão política, social, econômica, espiritual e cultural da Nação Guarani; incluindo como mestres a nossos avôs e nossas avós.


18. O cumprimento do direito à consulta previa à comunidade ou povo afetado, e em todos os casos, cumprindo tratados internacionais, para a exploração de hidrocarbonetos e outros minérios.


19. A garantia para o acesso das comunidades a água potável e de qualidade.


20. O cumprimento das sentenças da Corte Interamericana de DDHH sobre restituição de terras ancestrais aos irmãos indígenas do Chaco (enxet) e a solução de outros conflitos existentes sobre reclamações de terra dos povos originários.


Resolvemos


Primeiro: O território e todo o que nele existe são direitos fundamentais aos que não renuncia nem renunciará a Nação Guarani porque é parte de sua existência, de sua identidade, de sua vida física, cultural e espiritual.


Segundo: Reivindicar a territorialidade como parte da extensão física e cultural da Nação Guarani.


Terceiro: Se ratifica nele reconhecimento do Conselho Continental como instancia organizadora, articuladora e representativa da Nação Guarani, integrado pelos representantes de Argentina, Brasil, Bolívia e Paraguai.


Quarto: Que a Nação Guarani não formará parte da estrutura do MERCOSUL e que se abocará ao fortalecimento de suas organizações de base e o Conselho Continental. O plenário discutiu a proposta inicial do I Encontro de criar una instância em nível do mercado comum e decidiu por enquanto não dar curso à proposição.


Quinto: Não considerar o Bicentenário da independência do Paraguai como aniversário para celebrar porque para nossos povos só foram 200 anos de despojo, discriminação humilhação, avassalamento, perseguição, saques e morte.


Sexto: Solidariedade com todos os povos originários irmãos, apoio a suas lutas e resistência por manter sua terra, sua identidade e sua cultura.


Sétimo: Ratificar a decisão do Conselho de nomear o Encontro como da Nação Guarani. Assim mesmo assume que desde agora todos os encontros serão convocados pelo Conselho Continental, denominando ao próximo como III encontro da Nação Guarani no país ou Estado que esta Grande Assembleia - Aty Guasu defina.


Jaguatí, Amambay, Paraguai, 26 de março de 2011.


Fonte da notícia: CIMI

domingo, 13 de fevereiro de 2011

SARODE - canto de cura ayoreo

Os AYOREO são um povo indígena do Gran Chaco e vivem de ambos os lados da fronteira que separa o Paraguai e a Bolívia. Falam uma língua pertencente à família zamuco. De acordo com os últimos censos, os Ayoreo são de 4.000 a 5.000 pessoas, com mais de 2.000 residentes no Paraguai.

Até a década de 1950, os Ayoreo evitavam contato com as sociedades nacionais ou outros povos indígenas, e as relações entre diferentes grupos territoriais ayoreo eram freqüentemente hostis, especialmente entre os Ayoreo do
norte e os do sul - os Guidaigosode e os Direquedejnaigosode. Mesmo hoje, os Ayoreo são extraordinariamente diferenciado, mantendo sua língua e muito de sua cultura. Muitos falam pouco ou nenhum espanhol ou guarani; e, diferente de vários outros povos indígenas do Chaco, raramente se casam com povos de outras sociedades indígenas, se é que alguma vez o fazem, e muito menos com povos não indígenas. Na Bolívia, os Ayoreo foram contatados pela primeira vez na década de 1950; no Paraguai, apenas em 1962. As últimas e poucas famílias de Totobiegosode só foram contatadas em 2003, após várias tentativas, incluindo uma desastrosa expedição em 1986 que levou à morte cinco dos Ayoreo. Nos últimos anos, algumas comunidades menores, independentes, tais como Tunucujai, Ebetogue, Jesudi e Jogasui, separaram-se das duas comunidades principais no Paraguai e adquiriram o direito a ter suas próprias áreas pequenas de terras.

Os SARODE – ou “cantos de cura” são muito perigosos. Se eles fossem cantados sem nenhum bom motivo, podem de fato trazer a condição que deveriam curar. Por exemplo, se um canto para curar mordida de cobra for cantado à-toa, pode realmente fazer com que alguém na comunidade seja mordido por cobra. Existe sarode para curar dor de dentes, dor nas pernas, convulsões, exaustão, feridas causadas por uma onça, etc.

É importante observar que os sarode são apenas um de uma série de diversas técnicas de cura. Eles podem ser usados por q
ualquer um que conheça os cantos, não só por pessoas consideradas xamãs. No entanto, devido ao perigo potencial associado aos cantos, não são amplamente conhecidos e, na verdade, videntes e xamãs geralmente têm um repertório mais amplo. Xamãs ayoreo também usam outras técnicas, principalmente a sucção, para remover dores ou objetos patogênicos considerados causadores de doenças; e alguns xamãs são também especializados em assoprar ou utilizam uma técnica que implica passar as mãos pelas partes do corpo afetadas pela doença. Sebag explica isso como sendo o OREGATÉ – o "espírito" das mãos do xamã – entrando no corpo do paciente para remover o objeto ofensor. Em Jogasui - uma comunidade que se estabeleceu perto do local de Faro Moro -, conta-se de um velho parteiro, Ñaine, que mora em Tunucujai e usa sopro e passar as mãos para evitar que mulheres – especialmente aquelas que passaram por cesarianas - tenham mais filhos. Os Ayoreo insistiram que seu método é eficaz e citaram os nomes de duas pacientes que não tiveram mais filhos desde que foram tratadas por ele.



Algumas das canções de cura são acompanhadas por sucção para remover a dor. A sucção e o sopro são técnicas usadas pelos xamãs, conhecidas por DAIJNAME (no singular, daijnai). O sopro geralmente é usado para curar doenças menores, enquanto a sucção é usada para curar doenças mais sérias ou crônicas e pode envolver a remoção de objetos grandes. Há diferentes tipos de daijnane: alguns se comunicam ou recebem seus poderes de espíritos de peixes ou de criaturas aquáticas, outros de animais terrestres e alguns de pássaros e outras criaturas do ar.

Os Ayoreo também reconhecem uma categoria à parte de xamãs, os JNAJAPODE, que podem ser definidos como “videntes” ou “homem da sabedoria”. Por meio de seus sonhos e visões, eles apren
dem canções que os espíritos lhes ensinam e podem prever perigos, tais como epidemias e ataques de inimigos. Um dos homens mais velhos que mora em Jogasui é Cojñoque; ele relata que seu pai era jnajapode, que cantava suas revelações: por exemplo, numa ocasião ele sonhou que um espírito (dicore) o preveniu de um ataque iminente pelos Direquedejnaigosode, os Ayoreo da Bolívia. Os jnajapode geralmente não são daijnane, mas há exceções notáveis, tais como Uejai, líder dos Guidaigosode, que era um daijnai e vidente bem-sucedido. Aparentemente, em certa ocasião, Uejai sonhou que um tamanduá gigante perseguiu seu povo - isso foi um sinal de que o mal afetaria o grupo. Ele sempre os alertara de não comer animais defeituosos, mas parece que alguns Ayoreo de sua comunidade tinham matado e comido um tamanduá cego sem informá-lo. Isso foi em 1986, quando os Ayoreo de Campo Loro estavam se preparando para fazer contato com Totobiegosode; em poucos dias chegaram as notícias a Campo Loro de que cinco Ayoreo do grupo tinham sido mortos no encontro.

Os cantos de cura em si, os sarode, são recitais curtos que podem ser repetidos conforme a necessidade. A maioria tem uma estrutura semelhante: começam com o cantador se identificando com um animal ou planta que costumava sofrer a condição que o canto pretende curar, e o canto então explica que o animal ou planta tem o poder de curar a si mesmo e pode explorar seu poder de curar outros. Os mesmos temas se repetem, daí expressos de uma forma um pouco diferente, e se repetem novamente e assim por diante. Exatamente como acontece com todo canto xamanístico, o sarode geralmente revive a experiência do paciente. Talvez a melhor maneira de transmitir o sentimento do sarode é apresentar alguns exemplos. Um canto para curar infecção de ouvido é assim:

Eu sou Digorocoi [uma espécie de pica-pau].
Eu faço buracos nas árvores: a sujeira entra nos meus ouvidos, deixando-me totalmente surdo.
Eu não consigo ouvir nada...
Mas agora, eu posso, com isto...
Eu não consigo me levantar, eu estou deitado no chão, mas agora eu sugo meu ouvido...
Eu me salvo, eu me salvo.
Meu ouvido está bem, eu posso ouvir de novo.
Eu me curei, eu me curei.
Meu ouvido está curado.
Meu
ouvido está como novo, eu sou Digorocoi.
Yo chi, yo chi, yo chi [sons da dor de ouvido].

Eu posso curar outros.
Eu sugo outros que sofrem de dor de ouvido.

Eu posso abrir os ouvidos de outros...
Eu posso curar dor de ouvido...
Eu posso abrir a audição de outros...
Eu posso sugar o ouvido daqueles que estão com dor de ouvido,
a dor os deixa e eles ficam felizes.
Porque eu posso... com isto...

Eu sou Digorocoi, eu sou Digorocoi.
Eu posso também curar outros…
Que sofrem de dor no ouvido Meu ouvido foi bloqueado...
Mas eu sugo outros, eu os curo.
Agora eles se sentem bem novamente.
Eu abri a sua audição…
Yo tidi, tidi, tidi Yo che, yo che, che, che [sons da dor de ouvido].

Eu sou Toroi [outro pica-pau].
Eu também posso curar aqueles cujo ouvido está bloqueado.
Eu também posso abrir os ouvidos daqueles que ficaram surdos.
Eu também posso sugar aqueles que têm dor de ouvido e abrir sua audição.
Eu os salvo, eu os salvo, eu os salvo.
Eu posso abrir seus ouvidos...
Eles estão felizes novamente
Porque eu abri seus ouvidos.
Eles estão felizes de novo.
Porque eu suguei seus ouvidos.
Eu abri seu ouvido.
E eu os salvei…
Yo che, Yo che, che, che Yo tidi, tidi, tidi… [Sons da dor de ouvido.

Em alguns sarode, o cantor começa por identificar o órgão infectado, usando onomatopéia para expressar a dor sentida pelo paciente, e só depois identifica o animal que tem o poder de curar a doença. Um sarode para curar dor de estômago é assim

Eu sou o estômago.
Yo oooh, oooh, oooh Yo oooh, oooh… [Barulho da dor de estômago.]
Minha dor que eu sofro é terrível, ii, iii [barulho da dor de estômago].
Quando a dor de estômago pega alguém, ela não deixa a pessoa comer.
A dor faz a pessoa sofrer... sou o estômago, eu faço a pessoa sofrer!
Aieee…


Eu sou o Aruco [um pequeno tatu].
Eu sou Aruco, se eu sugo, se eu sugo o estômago, dor vai embora imediatamente.
Quando eu sugo, a dor me toma, a dor entra em mim, teri, teri [barulho da dor].
A dor entra em mim até que o meu sangue sai, até que o meu sangue sai.
Eu sou grande, grande, grande...
Quando a dor entra em mim, eu sugo meu estômago até que a dor passa.

Neste canto. o cantor suga o estômago do paciente e depois canta de novo. Darei outro exemplo, desta vez de um canto para curar infecção dos olhos que envolve dois animais semelhantes, Capomira, um pequeno sapo que mora na areia e sai e canta quando chove, e Ugobedai, descrito como um tipo de geco espinhoso:

Eu sou Capomira [um pequeno sapo], eu sou, eu sou...
Eu tenho boa visão, boa visão, boa visão...
Eu entro na terra, eu entro na terra.
Quando eu saio, não há nada de errado com a minha visão.
Eu me enterro na areia, nada acontece com minha visão.
Nada acontece com minha visão, nada...
Eu curo outras pessoas.
Eu sugo a dor das infecções nos olhos, e a dor vai embora.
Eu faço a dor ir embora, ela vai embora...
Eu tenho boa visão.
Boa visão...
Nada acontece com meus olhos.
Yo tidi, tidi. Yo cha, cha… [Sons da dor de infecção nos olhos]

Eu sou Ugobedai [uma espécie de geco].
Eu tenho uma cabeça feia.
Eu posso fazer a dor nos olhos passar.
Tori, tori, tori, torii, torii… [Som da infecção sendo curada.]
Eu também sofro de dor nos meus olhos.
Eu saio da areia, mas meus olhos são saudáveis.
Meus olhos são saudáveis, meus olhos são saudáveis.
Eu sou ótimo. Eu curo a dor nos olhos.
Eu tenho boa visão, boa visão...

A condição, ou a doença, às vezes é personificada. Um canto para curar queimaduras - deve ser observado que as queimaduras às vezes são auto-infligidas para demonstrar tristeza pela morte de um amigo próximo ou parente, ou em algumas ocasiões simplesmente para demonstrar coragem - descreve o poder das chamas, enquanto o canto para curar diarréia descreve a contorção do estômago, a defecação e a sensação de queimação no reto. De forma semelhante, um canto para curar dor de cabeça inclui os seguintes versos:

Eu queria ser uma grande [séria] doença...
Mas eu vou ser uma dor de cabeça.
Eu vou ser uma dor de cabeça.
Eu vou fazer uma dor de cabeça.
Eu vou fazer uma dor de cabeça e vou doer muito.
Eu vou doer muito.
Eu vou doer a cabeça...
Eu realmente vou doer muito.

Eu vou ser uma dor de cabeça realmente dolorosa.
Eu vou doer.
Eu bato a cabeça no chão.
Eu sou a dor de cabeça.
Yo, to, to, to, to, to Ye, ca, ca, ca, ca, ca [sons da dor de cabeça].

A falha de um sarode não significa que a técnica seja questionada. Em geral, leva a uma reavaliação do diagnóstico ou, mais provavelmente, a uma reavaliação da gravidade do caso. De fato, a maioria dos sarode destinam-se a condições que são aparentemente simples ou óbvias: infecções nos olhos, dores de cabeça, dores de estômago, queimaduras, feridas ou parto prolongado, etc. Se o sarode fracassa em alcançar a cura, isso pode significar que a condição se deva na verdade a alguma causa subjacente. Se um Ayoreo corta o pé com um machado ao cortar madeira, é um acidente, no entanto, se a ferida infecciona e não é sanada, o paciente e seus parentes podem começar a procurar outras explicações. Os Ayoreo são pouco propensos a interpretar isso como feitiçaria, embora haja essa possibilidade mas, então, geralmente é atribuída a forasteiros mais do que de pessoas da própria comunidade. Os Ayoreo talvez tendam mais a interpretar doenças graves e infortúnio em termos de infrações, chamadas de PUYAC. Esta palavra significa "perigo" ou "sujeira" e se refere a um complexo conjunto de regras que define dieta, caminhadas na floresta em certas épocas e perturbar animais que hibernam durante o inverno, particularmente poji, o iguana e asonjá, um pássaro noturno do gênero dos Caprimulgidae, talvez bacurau-da-telha. O caso do tamanduá cego, mencionado acima, é bastante típico dessa categoria: observe-se que a pessoa que comete o ato não é necessariamente a mesma pessoa que sofre a doença ou o infortúnio.

Os cantos de cura ayoreo são eficazes da mesma forma que os tratamentos médicos ocidentais de primeira linha - já que o paciente geralmente se sente melhor e eventualmente se recupera. Exatamente como ocorre com os procedimentos ocidentais, eles não são infalíveis: em alguns casos, exige-se uma revisão do diagnóstico ou um tratamento mais radical, em outros, o paciente fica permanentemente incapacitado ou morre.
Baseado em texto de John Renshaw

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A PALAVRA GUARANI


Os pajés guarani dizem que o ser humano é, em sua origem, uma palavra sonhada. Quando chega a hora de dar a luz, o Verdadeiro Pai e a Verdadeira Mãe das palavras-alma dizem pra a que está por nascer: “Vá à terra. Eu farei que minha palavra circule por teus ossos e que tu lembres de mim no teu ser erguido”. Por um lado, esta palavra fundamenta a convicção guarani de que os seres humanos se constituem de uma porção divina e divinizadora, que mantém o ser humano na posição vertical. Ela é representada no nome ITUPARERA. Por outro lado, essa palavra integra os humanos ao cosmos e marca neles a sua condição de seres dependentes, representado no seu nome “selvagem”, nome do mato, HERAKA’AGUY. É digno de nota que a palavra não é recebida pronta, completa. Ela é um impulso inicial que deve ser desenvolvido ao longo da vida, por meio da dedicação e do esforço pessoais.

Mas esta tarefa de desenvolver a palavra divina em si e desenvolver-se nela coexiste com a tendência de descuido com a palavra divina. Então, o ser humano se divide, fica encurvado. Sobrevêm confusão, enfermidade, tristeza, inimizade, etc. Bifurca-se a palavra. De modo que a vida é marcada pela inestabilidade. De um lado, o otimismo de erguer-se como alguém por cujos ossos flui a Palavra, de crer poder adquirir-se grandeza de coração (PY’A GUASU), de plenificar-se na Palavra (ÑE’E AGYUJE), de alcançar a Palavra sem Mal (ÑE’E MARANE’Y). De outro, o pessimismo decorrente da ignorância, da ira e do ato de ofender.

Assim, na antropologia guarani, a Palavra é, por um lado, um numem, a alma, o próprio tornar-se pessoa. Por outro lado, ela é sua própria língua, o guarani.

A experiência com o português se impõe para muitos indígenas no âmbito da palavra lida e escrita. O Guarani domina no âmbito do falar e do escutar. Dos intelectuais da ciência guarani experimenta-se esse falar e escutar a palavra como ÑE’EENDU, enquanto que o ver a palavra como ÑE’EECHA, que, por sua vez, originam duas formas distintas de perceber, desenvolver e administrar a palavra. De modo que podem distinguir-se dois tipos de lideranças no âmbito da palavra. As OHENDUVA são as que alcançaram sua ciência por intermédio de outras pessoas (reconhecidas colmo ÑE’ENGATU: de boa palavra), seja ouvindo delas cantos, rezas, histórias ou mesmo as experiências do povo. As OHECHAVA são aquelas lideranças que fizeram uma experiência direta com a Palavra, contemplando-a num ato místico ou sendo inspiradas por ela, em sonhos.

Segundo a liderança intelectual guarani, é a maior ou menor predisposição e esforço para “ouvir” e “ver” a que permite à pessoa desenvolver-se na Palavra, que no fundo é desenvolver-se como pessoa. Via de regra, embora haja uma preferência teórica pelo “ver” como caminho para alcançar a Palavra e a maturidade, são raras as pessoas que se “esforçam” por alcançar “belas e boas palavras” por essa via. A maioria situa essa forma de conhecer no passado. Entende que esse caminho não é mais acessível, seja porque o meio ambiente – tão diferente do tradicional – o dificulta, seja porque os costumes adquiridos impedem que as pessoas desenvolvam sensibilidade para a contemplação.

O interessante é que tanto o “ver” como o “ouvir” convergem no “dizer” e no “dizer-se”. Assim, nas comunidades guarani, ainda que o “ver” pareça ser uma experiência mais individual, a pessoa que vê a Palavra é mais quando a comunica, quando faz do seu “nosso”, OÑOÑE’E. Isto é mais do que apenas “dizer”, um falar a respeito de, da Palavra; é um “dizer-se”, um falar onde quem fala é afetado pela Palavra que fala.

A experiência guarani de “ver” e “ouvir” a Palavra convergem ritualmente no ato de caminhar. Assim, numa das principais cerimônias guarani, homens recitam horas e horas a Palavra ouvida e aprendida de memória, enquanto caminham em círculo, seguindo os passos de um líder. Durante o andar, cada integrante rememora sua história pessoal e comunitária, ativa a memória coletiva, entra nela e mistura as histórias de sua vida com a dos seus antepassados. O guia declara versos de episódios míticos e aproxima o grupo de sua origem, ROGUATAMO ROÑEMBOYPY. O grupo de homens visualiza a terra pequenina. Ela vai crescendo adornada por um mando de neblina. Seres divinos e seres protetores fazem nela morada. Há dificuldades no lugar. Os celebrantes se tentam abrir caminhos no meio delas. Eles cruzam as diversas plataformas superpostas do universo e chegam ritualmente à morada de Nosso Pai e Nossa Mãe – Ñanderu e Ñandecy. Estes os recepcionam e lhes confia a tarefa de cultivar o bom modo de ser, celebrar as festas e proferir boas palavras.

Há nos grupos guarani quem diga que Ñanderu deu a eles a maracá e aos não-indígenas o kuatia jehaira (papel para escrever). Assim teriam ele estabelecido a diferença básica entre esses grupos: o mundo sonoro e musical dos guarani e o mundo da escrita dos não-indígenas.

Baseado em texto de Graciela Chamorro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

JURITI-PEPENA... o tajá que pia.

A filha de um pajé foi abandonada pelo amado, em troca de outra donzela. Tão grande foi a desilusão e de tal forma ficou ferido o coração da jovem desprezada, que esta não resistiu à dor da separação e faleceu. O pajé, pai da infeliz, transformou-a na jurutí, e no local onde foi enterrada surgiu uma planta – o tajá (tinhorão) – que encerrava alma da desditosa e apaixonada criatura. Essa planta, empregada em sortilégios de amor, enfeitiça os amantes traidores, que passam a ser perseguidos pelo piar da ave, até que se cumpra a maldição, isto é, até que aquele que trocou de amores fique inválido, paralítico.

São inúmeros os fenômenos que ocorrem nos confins d
o sertão e que mantêm o indígena e o caboclo em constante sobressalto. Eles identificam o sobrenatural a todo o momento, e em diferentes lugares: no ar, nas águas, nos montes, nas cavernas e na selva. Algumas presenças se traduzem em bom augúrio, outras o assustam e o atormentam. O seu espírito e a sua conduta, por isso, variam de instante a instante. As teias e os movimentos da aranhas, o carreiro das formigas, o zumbido dos insetos, a coloração do céu e as formas das nuvens são interpretados como porta-vozes dos espíritos. O canto e o vôo dos pássaros, também são tidos como portadores de mensagens.

Há, por exemplo, um som curioso, que em determinadas situações parte do interior ou das proximidades de uma touceira de tajá: é um arrulho repetitivo e tristonho que parece estar perto de nós, do nosso lado, sobre a nossa cabeça, sem que a gente consiga ver o misterioso pássaro cantador. Podemos até remexer os arbustos, nada encontramos, nem nós nem os cachorros. Não é sempre que o fenômeno ocorre, mas quando começa, custa a parar. Sem uma explicação científica que o justifique, é possível que o rumor seja devido ao desabrochar de uma folha nova, ou, quem sabe, à passagem do ar pelas axilas da planta.

O indígena, em suas andanças pela mata, não gost
a de encontrar um tajá. Se isso ocorre, desvia rápido, e vai-se embora. Do mesmo modo, se o selvagem ouve o canto de uma pomba jurutí, olha logo para os lados, procurando localizar o passarinho. Ele sabe, e de resto, todos na Amazônia sabem, que encontrar pela frente um pé de tajá e ouvir, ao mesmo tempo, o piado insistente de uma rolinha invisível, é sinal certo de desgraça.

Querer destruir o tajá é uma temeridade. Conta-se que Januário, um pescador do Cambixe, certa tarde começou a ouvir "bater sapopema". Em seguida notou, não longe de seu tapiri (cabana), um pé de tajá. Era tajá membeca, o pior de todos. Ficou desconfiado. Por via das dúvidas, resolveu meter o terçado (facão). No segundo golpe, ficou com o braço inteiramente seco. Tarde, ele aprendeu que deveria ter feito aquilo que os velhos recomendam para esses casos: ir-se embora rápido, sem olhar para trás.

Esse pio misterioso, que vem do pé de tajá ou de suas imediações, é o canto do infortúnio. É o fim de todas as coisas. É JURITÍ-PEPENA - diz o caboclo. Sinal de ter sido escolhido para destinatário de tragédia. Sabe que o Gênio do Mal lhe pegou. Procura se lembrar de algum mal que tenha feito; do prejuízo que possa ter causado aos outros, mesmo inadvertidamente; de algum feitiço que injustamente tenha feito contra outra pessoa e que agora "vira" contra si. Convencido ou não de sua culpa, fica silencioso e abatido, tomado de uma tristeza sem fim.

É uma punição, sem dúvida, "coisa feita". Dizem ser uma vingança traiçoeira e implacável, que sempre atormenta os errantes filhos da selva. Dentro de pouco, estará paralítico. De nada adiantará friccionar o corpo com copaíba, manacá, tatapiririca, banha de sucurijú ou leite de mulher virgem... ou nenhuma outra medicina da selva. Só lhe restará o desengano, a morte. Está definitivamente "atuado" (marcado). Vai ter que prestar contas aos "companheiros do fundo". Anhanga lhe espera no "ibiapitera", aquele medonho caldeirão que os brancos chamam de "quintos-dos-infernos".

Nada se pode fazer contra a Jurití-Pepena, essa desgraçada pomba invisível, mensageira do mal, que pia na touceira do tajá, nas proximidades das taperas.

Os pajés, quando solicitados para tratar casos de Juriti-Pepena, examina tudo minuciosamente; fica em silêncio, auscultando o barulho... Certifica-se de que o gemido seja mesmo de jurutí. Caso positivo, manda todo mundo se afastar. Que ninguém faça barulho! Cruza as mãos. Permanece imóvel, contrito, durante alguns minutos, junto ao doente. Depois, ajoelha-se piedosamente. Persigna-se com o polegar direito e beija a mão. Reza, então, em voz baixa, a oração recomendada:

Jurití-Pepena, por que tu pena ?
Quem te fez pena ?
Ser humano, anima ou vegeta ?
Fulano (aqui dá o nome a vítima) só qué trabaiá.
Tem famía prá cuidá. Deixa de lê aperriá !
Anhangá, Anhangá, Anhangá, leva a jurití pr'o teu tejupá.
Deus Nosso Sinhô, Vige Maria e Sino Salomão, venham ajuda.
Nóis num pode mais aguentá.


A oração é completada por um "Amém" solene que parte de todos os presentes.

Em seguida, o pajé corta umas ramas de mato. Cobre-as com a fumaça de seu cachimbo. Em movimento agitados, "limpa" o espaço ambiental circunjacente. Depois, varre cuidadosamente o chão. Larga as ramas e, com o corpo inclinado para a frente, dá voltas em círculo, oportunidade em que costura um pequeno breve de morim roxo, levado de propósito, e dentro do qual introduz uma folha da ramagem defumada. Finalmente, dá por encerrada a "sessão", recomendando à vítima que use sempre o patuá colado ao corpo. Dizem que é o único jeito de atenuar os malefícios da Jurití-Pepena. Anular o seu mal, é impossível.

Normalmente, não há aleijados entre os indígenas e mesmo entre os caboclos. Mas, se encontrarmos um inválido e lhe perguntarmos a razão do seu mal, é quase certo que ele nos responda com convicção: Jurití-Pepena...

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Juriti é um pássaro da família dos Columbidae (pombos), da espécie: Leptotila rufaxilla. Tem 26,5 cm de comprimento e é comum do sul dos Estados Unidos à Argentina, estando presente em quase todo o Brasil. Comum no chão de habitats quentes, tais como capoeiras e campos adjacentes, bordas de florestas densas e cerrados. Vive solitária ou aos pares. Alimenta-se de sementes e frutos no chão. Quando perturbada, foge caminhando sem fazer barulho, ou voa, emitindo um som com as asas, até uma árvore próxima.
Faz ninho típico de pombinhas - uma plataforma construída de gravetos e grama, localizada em arbustos baixos ou árvores, eventualmente no chão. Põe 2 ovos brancos. Conhecida também como pu-pú (Rio Grande do Sul) e juriti-pupu.

Baseado em texto de Altino Berthier Brasil