domingo, 18 de maio de 2014

TEYUNA, A CIDADE PERDIDA


Teyuna é como uma casa cerimonial.
É o lugar que concentra toda a responsabilidade com o resto do universo,
é o lugar de onde se vigia e protege o sagrado e o vital para o planeta,
é a base e a união com o espiritual.
É o cordão umbilical que une a origem e o presente,
o espiritual e o material,
é a união com a Mãe!
Organização Gonawindúa Tayrona

A "Sierra Nevada", de Santa Marta, na Colômbia, é uma imensa montanha com uma extensão de 17.000 quilômetros quadrados. Os picos mais altos são o Colón e o Bolívar, ambos com 5775 metros de altura. São os mais altos do país e os mais altos do mundo perto do mar – do qual distam apenas 42 quilômetros.

Na Sierra Nevada de Santa Marta se apresentam todos os climas da Terra, excetuando o desértico. É habitada desde épocas remotas; no início da era cristã, os TAYRONA, povo de origem mesoamericana e de língua chibcha, se estabeleceram ali. Não conheciam a escrita, nem o uso da roda ou a utilização de animais para transporte ou tração. Entretanto, desenvolveram a agricultura em larga escala, que permitia a obtenção de produção excedente.

Os Trayrona viviam em vários assentamentos: o mais conhecido hoje é conhecido pelo nome de Pueblito (povinho, em português), no parque Tayrona. Era um dos maiores, com aproximadamente 1000 cabanas – todas de barro construídas em conjunto sobre bases circulares delimitadas por muros de contenção de pedra. Outros assentamentos, hoje perdidos, eram Bonda, Pocigueica, Tayronaca e Betoma, todos situados em locais afastados da costa. No interior da Sierra Nevada, a uma altura de aproximadamente 1200 metros acima do nível do mar, estava situada TEYUNA, centro espiritual e comercial de importância primordial.

Para chegar a Teyuna é necessário caminhar pelas estreitas trilhas da Sierra Nevada. A primeira parada da viagem ocorre em Mamey, um pequeno povoado de colonos ao qual se chega por uma estrada sem asfalto. De Mamey continua caminhando, escalando para cima e para baixo os caminhos da Sierra, em meio a uma exuberante vegetação tropical.

Após um dia de viagem, entra-se no VALE DO RIO BURITACA, onde atualmente vive o povo Kogui, descendentes dos Tayrona. Ainda usam a língua chibcha e seguem as tracições ancestrais dos Tayrona. Eles chamam o vale de MUTANJI.

Depois de mais um dia de viagem – atravessando uma dezena de vezes o rio Buritaca –, chega-se a uma escada íngreme, construída pelos Tayrona. São aproximadamente 1200 degraus antes de chegar em Teyuna e poder vislumbrar os primeiros terraços delimitados por muros de contenção feitos de pedra, que também serviam como suporte às cabanas.



Teyuna em língua chibcha significa origem dos povos da Terra, porém o nome popular deste importante depósito arqueológico é cidade perdida. Teyuna permaneceu, na realidade, abandonada e esquecida durante aproximadamente 375 anos, até 1973, quando foi localizada.

Depois das incursões dos espanhóis na zona costeira de Santa Marta, a partir de 1525, os Tayrona adentraram cada vez mais na Sierra Nevada e provavelmente se refugiaram em Teyuna em torno de 1540. No vale do rio Buritaca, numa zona compreendida entre 500 e 2000 metros de altitude, foram encontrados 32 centros urbanos. Alguns contam com apenas 50 terraços, delimitados por muros de contenção. Outros, como Teyuna, contam com uns 140 aterros. Estes assentamentos são: Tigres, Alto de Mira, Frontera e Tankua.

Teyuna, cujas estruturas de pedra se encontram a uma altura compreendida entre 900 e 1200 metros acima do nível do mar, era o centro principal do vale e cumpria um papel espiritual e comercial. Provavelmente em cada terraço estavam construídas duas cabanas. Pode-se estimar, assim, que a população total de Teyuna chegava a 1500 pessoas, que habitavam as 280 cabanas.

Os Tayrona decidiram, com o passar do tempo, modificar o terreno, íngreme e acidentado, para obter superfícies planas aptas para a construção de suas unidades residenciais. Algumas paredes de Teyuna têm uma altura de até 9 metros e além de conter os terraços, servem para marcar os caminhos, canalizar os fluxos de água e evitar a erosão das montanhas. A forma dos terraços varia segundo a localização e provavelmente segundo o uso ao qual estavam destinados. Aqueles situados mais altos são ovais, enquanto que os outros são, na sua maioria, semicirculares ou circulares. Sua extensão varia de 50 até 880 metros quadrados.


Na Sierra Nevada o regime de chuvas é abundante: de 2000 à 4000 mm anuais. Os arquitetos Tayrona se viram obrigados a aperfeiçoar as técnicas para controlar o fluxo de água. Foram construídos canais subterrâneos que funcionam até hoje. Igualmente, a superfície dos terraços tem um gradiente médio de 10% para o exterior.

A economia dos Tayrona, baseada na agricultura, permitiu dar suporte à densa população da Sierra Nevada por aproximadamente 700 anos, em um período compreendido entre o século IX até o fim do século XVI da era cristã. Depois da análise e do estudo das tradições dos Kogui, descendentes dos Tayrona, se deduz que Teyuna foi abandonada em torno de 1600 e que permaneceu esquecida, exatamente, durante mais de três séculos. Provavelmente houve a difusão de epidemias que obrigaram os Tayrona a abandonarem sua cidade e se dispersarem em pequenos assentamentos ao longo do vale, de difícil acesso aos espanhóis.

Com o tempo, os nativos da Sierra Nevada deixaram de visitar Teyuna, embora nas tradições dos Kogui a exata localização da cidade estivesse cuidadosamente guardada.

Em torno de 1970, alguns camponeses que colonizaram a parte baixa da Sierra Nevada, até aproximadamente 700 metros acima do nível do mar, souberam das possibilidades de encontrar grandes tesouros. Em pouco tempo, alguns deles se organizaram e, sem nenhuma preparação arqueológica, se dedicaram ao saque das tumbas Tayrona, atividade ilegal chamada guaquería.


Os guaqueros entraram cada vez mais ao interior da Sierra até que, em 1973, um deles, Julio César Sepúlveda, chegou à cidade perdida e começou a saqueá-la. Quase contemporâneo, outro guaquero, Jorge Restrepo, chegou junto com seus homens a Teyuna e se dedicou aos saques. Os bandos se enfrentaram e os líderes morreram no sangrento combate. A história voltou a se repetir. Depois de quase 500 anos do desembarque dos primeiros europeus na América, a mania de se enriquecer com o ouro sepultado nas tumbas indígenas continuou fazendo vítimas.

Os saques persistiram. Em Santa Marta, em 1975, havia comerciantes sem escrúpulos que organizavam as expedições dos guaqueros para a Sierra Nevada. Aqueles forneciam os equipamentos necessários: mulas, armas, lâminas e alimentos, e obtinham de retorno a obrigação dos guaqueros de vender só para eles as descobertas arqueológicas, muitas vezes de inestimável valor histórico e artístico. As descobertas eram então revendidas no mercado internacional e perdidas para sempre.


Por sorte, este infame comércio foi interrompido em 1976, quando uma expedição científica organizada pelo Instituto Colombiano de Antropologia chegou até Teyuna e iniciou um processo de valorização, restauração e conservação das descobertas e dos terraços da cidade. Cinco pessoas foram responsáveis pela reconstrução: os arqueólogos Gilberto Cadavid e Luisa Herrera de Turbay, o arquiteto e escritor Bernando Valderrama Andrade e os guias locais Francisco Rey e "O Negro" Rodríguez.

Após os seus trabalhos de escavação nos terraços de Teyuna, eles descobriram coisas muito importantes, como jóias de ouro e copos de cerâmica esculpidos. Foram encontrados também algumas espadas e alabardas espanholas, porém não está claro se alguns grupos de espanhóis chegaram a Teyuna ou se essas armas foram sepultadas nas tumbas como troféus de guerra.

Texto de Yuri Leveratto


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