
Para começar a organização, Manco Capac determinou que seus acompanhantes deveriam ocupar a parte alta do vale, e chamou aquela área de HANAN QOSQO (Alto Cuzco). Mama Ocllo, por sua vez, mandou que os seus acompanhantes ocupassem a parte baixa do vale, e chamou de HURIN QOSQO (Baixo Cuzco). No ponto em que Hanan Qosqo e Hurin Qosqo se encontravam, eles ergueram HAUKAYPATA - a praça central de Cuzco, onde aconteciam todas as festas, festivais e rituais; o coração da nova cidade. Foi essa organização que originou o conceito de YANANTIN: a dualidade ontológica de todas as coisas e a complementaridade das duas partes, de forma que uma não existe sem a outra. A partir de então, tudo que existem passo a ter um hanan e um hurin.
Javier Lajo, sociólogo peruano, considera essa visão a principal diferença entre os povos andinos e a civilização ocidental. Enquanto, segundo ele, “o conceito primário da estrutura do pensamento ocidental – dos neoplatônicos a Marx – é a concepção de uma unidade criadora, do ‘unitarismo’ ou de um ‘criador’ de tudo a partir de uma origem única – seja ele a matéria, o espírito, a idéia, Deus, etc. – formando um sistema impar ou unitário, onde a unidade cria sua medida e mede com ela todas as suas emanações, com a finalidade de apropriar-se delas ou reincorporá-las, o sistema dual ou binário andino oferece duas medidas; nesse caso, a única solução de relação que temos é a proporcionalidade entre elas”. Entendendo como “proporcionalidade” os deveres sociais de reciprocidade. “Esta é a base, a viga mestra do sistema de pensamento e a sabedoria fundamental da cultura andina: a dualidade que se complementa e se proporciona em um DUOVERSO, paralelo e combinado”.
A dualidade de tudo está refletida também na noção dos três mundos: UKU PACHA, KAY PACHA e HANAN PACHA. Pacha é um termo quéchua que significa “totalidade espácio-temporal, cosmo, realidade”. UKU PACHA é, assim a totalidade de baixo, o cosmo interior, subterrâneo, a água, a terra; a ancestralidade, a herança e, nesse sentido, o passado, aquilo que nos sustenta, o chão. HANAN PACHA, por sua vez, é um outro universo: a totalidade de cima, o céu, a serra, o sol, o que nos dá a vida, os objetivos, os sonhos e projetos e, nesse sentido, aproxima-se daquilo que chamamos de futuro. No ponto de encontro entre esses dois universos, entre passado e futuro, entre ancestralidade e projetos, entre o antigo e o novo, está KAY PACHA – o mundo do aqui e agora, o presente. A realidade objetiva, visível e atual é, portanto, o resultado de encontro daquelas duas forças poderosas, dos DOIS UNIVERSOS (pacha).

A virtude de Uku Pacha é o MUNAY – o Amor – e a virtude de Hanan Pacha é o YACHAY – a Sabedoria. E isso faz de Kay Pacha – a realidade – um misto entre sentir e saber, emoção e razão e, portanto, o mundo de LLANKAY : o trabalho construtivo, realizado com amor e sabedoria.
Kay Pacha é o caminhar entre esses dois mundos. Por isso seu símbolo é o QUAPAQ NAN – o caminho dos sábios, aprendendo e praticando a proporcionalidade entre tudo que existe. A nossa realidade é, portanto, a esfera da reciprocidade, do cuidado mútuo, do respeito a todas as diferenças, do aprender e do ensinar, do diálogo e da partilha.
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