segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
domingo, 14 de setembro de 2014
OS "DONOS" DAS PLANTAS - cosmologia xamânica do roçado Mbyá-Guarani
Segundo
os Mbyá-Guarani, antes da Terra Atual (yvy
pyau), existiu uma outra, um primeiro mundo, chamado yvy tenondé, que foi destruído pelo dilúvio (iporum). A yvy tenondé
era perfeita e habitada pelos deuses. Mas um incesto entre dois dos principais
personagens cosmológicos Mbyá-Guarani despertou a ira das demais divindades,
que acabaram destruindo a Primeira Terra. Os Mbyá-Guarani já existiam quando
ocorreu o iporum. Com a destruição da
yvy tenondé foi criada a Terra Atual,
yvy pyau, para os Mbyá-Guarani
viverem e, junto com a Nova Terra, foram criadas todas as condições necessárias
para a sobrevivência dos Mbyá-Guarani, inclusive os alimentos que hoje eles
consideram tradicionais.
A
história de Kuaray e Jaxi, tidos como irmãos, embora o
primeiro tenha cirado o segundo, é um dos mitos fundadores da cosmologia
Mbyá-Guarani, no qual são definidas algumas divindades e estabelecidas suas
posições no cosmo. O mito narra uma grande aventura que é finalizada com os
irmãos caminhando pelo mundo que acabaram de criar – yvy pyau – e denominando as coisas, com ênfase na nominação dos
alimentos.
Resumindo
o mito: a mãe de Kuaray (o futuro Sol), quando grávida, se põe no caminho a
procura do pai de Kuaray. De dentro do ventre da mãe, Kuaray vai indicando o
caminho correto que devia ser seguido. No caminho Kuaray pedia para que sua mãe
lhe colhesse algumas flores. Kuaray era então “criança” e sempre tinha os seus
pedidos atendidos. Numa das flores solicitadas havia um zangão que picou sua
mãe. Esta ficou irada com Kuaray, julgando que a culpa era do filho que havia
lhe pedido aquela flor e acabou batendo em sua própria barriga. Então, Kuaray
parou de indicar o caminho correto que eles deveriam seguir. Tomando o caminho
errado, eles foram parar na morada dos jaguares. Chegando lá só havia uma
jaguar velha em casa, que lhes disse para não ficarem ali para não serem
comidos por seus filhos, que logo retornariam. Só que a mãe de Kuaray não deu
ouvidos à velha e ficou lá. Então, voltaram os filhos da velha Jaguar e comeram
a mãe de Kuaray. Estes separaram o feto para que a velha jaguar comesse, mas
não conseguiram matar Kuaray, mesmo apões várias tentativas. Sendo assim, a
velha jaguar decidiu criar Kuaray. Ele criou o primeiro arco e fez três
flechas, passando a caçar para alimentar a velha jaguar, que então ele julgava
ser a sua mãe. Aliás, com a caça ele alimentava toda a família dos jaguares.
Depois Kuaray criou um irmão para ele, o Jaxy (futuro Lua). Ambos vão caçar em
uma ilha distante, desrespeitando as ordens da jaguar que julgam ser sua mãe.
na ilha tentam matar um papagaio que lhes conta que a jaguar não é a mãe deles,
que na verdade a jaguar comeu a sua progenitora. Entoa Kuaray e Jaxy, com ajuda
do lobo marinho, construíram uma ponte-armadilha. Quando os jaguares estavam
atravessando a ponte os dois irmãos a derrubaram, jogando os jaguares na água.
Porém, nem todos morreram afogados e o plano dos irmãos de extinguir os
jaguares fracassou. Assim, eles decidiram sair de perto dos jaguares procurando
seu pai, morador de uma outra comunidade. No caminho, os irmãos vão dando os
nomes para as plantas e animais, nomeando também os alimentos. Só depois é que
o Sol e o Lua vão para o céu, partilhando a função de iluminar o mundo. O Sol,
mais velho e poderoso, ilumina o dia. O Lua, irmão menor e não tão poderoso
quanto o Sol, ilumina a noite. Mas o Lua, mais fraco, fica cansado e tem que
descansar. É por isso que existem as fases “do Lua”.
Os
Mbyá-Guarani possuem duas porções de alma: uma sagrada e outra telúrica. A alma
sagrada é chamada ñe’e e significa, literalmente, alma-palavra. Na
linguagem Mbyá-Guarani os termos “alma” e “palavra” tem o mesmo significado, o
mesmo valor semântico. O ñe’e é a
alma e a palavra, a fala dos Mbyá-Guarani é a expressão de sua alma. Os pais
das almas-palavras, divindades chamadas ñe’eng ru eté enviam uma nova ñe’e para esse mundo quando cada nova
criança Mbyá-Guarani é concebida. Do nascimento de uma criança os Mbyá-Guarani
dizem que a alma-palavra tomou assento. Quando a criança, com cerca de um ano,
começar a falar (expressão da alma palavra) e andar (manter erguido o fluir de
seu dizer), ela será batizada – no ritual do nimongaraí. Neste momento
o nome da criança será revelado pelo karai
(xamã). O nome da criança tem a ver com o ñe’eng ru eté que enviou a ñe’e
dela. Para cada ñe’eng ru eté existe
um conjunto de nomes que podem ser dados à criança.
É
interessante que o Mbyá-Guarani não possuiu simplesmente um nome; ele é o próprio
nome. O nome é sua ñe’e. Como
escreveu Cristian Pio Ávila, “um Mbyá não
se hcama Karaí, por exemplo, ele é
Karaí, ele é o próprio nome” (Avila, 2005). E este nome veio de uma
divindade que tem um lugar preciso no cosmo Mbyá-Guarani, correspondente a uma
direção ordenada segundo os pontos cardeais. Por exemplo, os ñanderu kuéry (filhos de Ñanderu) moram
na direção leste, no nascente; já os tupã
kuery (filhos deTupã) moram no outro lado, onde o sol se esconde, no oeste;
os karai kuéry se encontram no leste,
relacionados com o paraguaçu, o
grande mar, isso também pode ser aplicado aos alimentos.
Voltando
aos alimentos Mbyá-Guarani e à narrativa sobre a aventura vivida pelos irmãos Kuaray e Jaxy, ao abandonarem a morada dos jaguares, ao iniciarem uma nova
vida longe da “animalidade”, os irmãos vão pelo “caminho” nomeando as coisas
que encontram, com destaque para os alimentos. Tem-se, então, que neste momento
mítico, ao nomear os alimentos, Kuaray
e Jaxy também os estão dotando de
almas. O que tem nome tem alma! O nome é a alma. E, mais do que isso, os irmãos
estão designando a divindade correspondente a cada alimento, com seu local de
origem, sua posição precisa no cosmos.
Isso
tudo ocorreu na transição da Primeira Terra (yvy tenonde) para a segunda (yvy
pyau). Os Mbyá-Guarani não costumam falar sobre o seu sistema xamânico
cosmológico com indivíduos que não pertencem ao seu grupo – ou o fazem de forma
muito ponderada. Por isso os dados sobre a transição entre as duas Terras estão
repletos de lacunas. Porém, cruzando informações entre vários autores, é
possível dizer que na Primeira Terra os Mbyá-Guarani eram deuses. Contudo,
existia uma hierarquia entre estes deuses. Isso se encaixa nas informações
apresentadas por Leo Cadogan (1997), Pierre Clastres (1990) e Hélène Castres
(1978). Segundo estes autores, na ocasião do iporum (dilúvio), a maioria dos seres que habitavam a Primeira
Terra “ascenderam” ao mundo sobrenatural. Os seres que não levavam uma vida
virtuosa foram deslocados para uma nova Terra, a Segunda Terra, que é a Terra
Atual, chamada yvy pyau. Os seres em
questão seriam os Mbyá-Guarani. Esta Segunda Terra foi criada especialmente
para dar uma nova oportunidade aos Mbyá-Guarani “ascenderem” ao mundo
sobrenatural. Esta é a razão da existência da Terra Atual.
Assim,
os Mbyá-Guarani estão nesse mundo – yvy
pyau – passando por uma espécie de prova (H. Clastres). Caso se portem em
conformidade com os anseios divinos, também se tornarão deuses. A Terra Atual é
imperfeita e habitada por seres também imperfeitos. O interessante é que nessa
Terra imperfeita é que os Mbyá-Guarani buscam se transformarem em seres
perfeitos. É o aguyje, estado de
perfeição do ser, que possibilita a passagem deste mundo para o sobrenatural,
ou a passagem para a divindade. Mas, mesmo habitando o mundo imperfeito, os
Mbyá-Guarani se nutrem com alimentos perfeitos. Alimentos estes que foram
criados pelos deuses e que alimentavam as divindades – muitos destes alimentos
inclusive já existiam na yvy tenonde
e foram simplesmente deslocados para a Terra Atual. Os deuses, “mandaram” estes
alimentos para a Terra Atual para que os Mbyá-Guarani possam atingir a
perfeição. Para serem perfeitos é preciso que comam alimentos perfeitos. Para
serem deuses é preciso comer o alimento dos deuses.
Pode
parecer um castigo divino o fato dos Mbyá-Guarani terem sido enviados para este
mundo a fim de passar por uma espécie de prova, mas não é um castigo. Ao
contrário, é uma bênção. É uma nova chance que os deuses generosos estão dando
aos Mbyá-Guarani para que eles também se tornem deuses. E, para tanto, os
deuses enviaram para este mundo, junto com os Mbyá-Guarani, os alimentos que
auxiliam nesta empreitada. Os Mbyá-Guarani sempre destacam esta generosidade
dos deuses e a gratidão para come lês. Trata-se de uma relação diferenciada com
as divindades, que nenhum outro tipo de ser desse mundo possui. Ocorre que,
como já havia sido destacado por Hélène Clastres e Pierre Clastras sobre a
mitologia guarani em geral, os Mbyá-Guarani gozam do status de “escolhidos”
pelos deuses, pois foram eles os primeiros a receber o adorno de plumas.
Os
Mbyá-Guarani vivem neste mundo – yvy pyau
– com os alimentos criados pelas divindades, porém as divindades responsáveis
pela alma desses alimentos encontram-se no mundo sobrenatural. Estas divindades
são geralmente designadas pelos Mbyá-Guarani como os JÁ dos alimentos – que em
tradução literal siginifica “donos”
ou “protetores”, como observou Ramón
Fogel (1998). Então, os alimentos estão em um mundo, mas seus donos, seus
controladores ou protetores residem em outro. Desta forma, o cultivo de
qualquer alimento tradicional pelos Mbyá-Guarani passa obrigatoriamente pelo
domínio do sobrenatural, por um respeito às prescrições divinas. Ocorre que ao “dispor”
os alimentos na yvy pyau, os deuses
também estabeleceram as formas que estes devem ser cultivados.
Cada
espécie tem a sua forma peculiar de cultivo, em consonância com o estabelecido
pelo seu já. O respeito às técnicas
prescritas é um dos determinantes do caráter sagrado dos alimentos
tradicionais. O alimento não é sagrado apenas por ser originário dos deuses,
mas é sagrado porque ele, também, é cultivado segundo as técnicas ensinadas
pelos deuses. E os Mbyá-Guarani vêm mantendo essas técnicas desde tempos imemoriais
– eles preservam as sementes das suas plantas tradicionais a partir da
aplicação de técnicas tradicionais de cultivo. Essas técnicas são dominadas por
todos os indivíduos do grupo: homens e mulheres, até mesmo crianças, demonstram
profundo conhecimento sobre elas – muito porque todos os Mbyá-Guarani colaboram
nas tarefas de obtenção dos alimentos.
Em
linhas gerais, que se aplicam a todas as espécies da horticultura Mbyá-Guarani,
pode-se observar uma ausência de limites rígidos entre os roçados, a mata e o
espaço denominado como “pátio” das casas e/ou aldeia. As tekoá (aldeia) Mbyá-Guarani são constituídas de um espaço contínuo,
com zonas de transição onde os três ambientes se fundem ou se confundem. Não há
fronteiras entre os diferentes ambientes, mas sim um ambiente interpenetrado no
outro. Isso não ocorre apenas nas suas roças, mas também em todo o espaço
ocupado pelos Mbyá-Guarani. A espacialidade por eles construída não apresenta
limites rígidos, não existindo fronteiras fixas entre um espaço e outro. Tudo é
contínuo, fluído, tênue. Um ambiente não acaba em um determinado lugar e
pronto. Ele vai acabando aos poucos, vai se metamorfoseando em um outro,
através de zonas de transição que compreendem mistos de dois ou mais ambientes.
Assim, o pátio de uma casa se estende e se confunde com o pátio da outra, que
se confunde com as roças de um produto, com as roças de outro produto, com o
campo, com o mato, etc., ao mesmo tempo em que tudo é caminho.
Diferente
dos “nossos” modelos de plantio, nas roças dos Mbyá-Guarani não existem linhas
retas. Os contornos do roçado seguem as inclinações do terreno, sendo que a
limpeza da vegetação da área é feita apenas nas áreas mais planas. Geralmente
os Mbyá-Guarani também optam por não avançar os seus roçados por áreas onde a
vegetação é de difícil remoção. Sendo assim, os contornos dos roçados são
extremamente sinuosos. Se é que se pode falar em contornos, uma vez que as
áreas se interpenetram – o mato avança entre as roças e as roças adentram um
pouco o mato; os roçados avançam sobre os pátios das casas e vice-versa. Onde são
semeadas as plantas, parece que as sementes são distribuídas de modo aleatório
no solo – porque não são semeadas em linhas. Mas existe toda uma ciência nesta
distribuição. São formas que, segundo os Mbyá-Guarani, garantem um melhor
aproveitamento do terreno, bem como a máxima rentabilidade das espécies
cultivadas. Além disso, as plantas devem ser semeadas de maneira que se sintam “felizes
umas com as outras, se plantar muito perto ela não fica alegre”. E, estas
formas de plantio foram ensinadas por Ñanderu.
Também
é característico dos roçados Mbyá-Guarani que diversas espécies partilhem a
mesma área. Numa primeira olhada, tudo parece um caos, várias plantas
misturadas, aparentemente sem nenhuma lógica. Abóboras crescem entre pés de
mandioca. Batatas-doce entre pés de milho. Melancias são semeadas no meio da
plantação de aipim. E assim por diante. Sem falar nos tocos remanescentes da
limpeza do terreno. Ser para “nós”, no estanhamento, tudo parece caos, para os Mbyá-Guarani
é o modelo perfeito. Inclusive esteticamente perfeito – o bonito são as plantas
“misturadas”. Os diferentes tipos de plantas que podem dividir o mesmo espaço,
o período de plantio de cada uma delas, o distanciamento entre elas, etc., tudo
segue uma ciência secular, prescrita pelos deuses. E esta distribuição peculiar
de plantas no terreno é que confere a tradicionalidade, a sacralidade e a “gostosura”
dos laimentos Mbyá-Guarani
Os
cultivos Mbyá-Guarani também se caracterizam pela ausência de adubos,
agrotóxicos e irrigação. Estes são desnecessários. Os alimentos são criações
dos deuses e são plantados como as divindades ensinaram aos Mbyá-Guarani. Além disso,
os deuses (os já de cada alimento) também são responsáveis pelo crescimento
das plantas. Esta estreita ligação dos Mbyá-Guarani com as suas divindades faz
com que todas as etapas da alimentação, desde o plantio até o consumo, sejam
marcadas pro inúmeros ritos. O plantio tem início com ritos na opy – casa de rezas –, quando os Mbyá-Guarani
solicitam aos deuses o crescimento das plantas. As sementes que serão plantadas
participam deste rito – que alguns Mbyá-Guarani traduziram como o “batismo das
sementes”. Depois, enquanto as plantas crescem na roça, outros ritos se
repetem, também visando a produção dos alimentos. Por fim, após a colheita,
período de festas entre os Mbyá-Guarani, novos ritos são feitos para agradecer
os alimentos obtidos. Isso é muito significativo, pois o sucesso ou fracasso na
produção dos alimentos está relacionado com o sucesso ou fracasso na execução
dos rituais, na comunicação com os já
das plantas. E os já das plantas
possuem uma porção sua nas próprias plantas. Desta forma, como conclui Fogel
(1998), para que as rezas (os ritos) produzam efeitos, elas precisam escutadas
pelas plantas e pelos seus protetores sobrenaturais. Se os Mbyá-Guarani fizerem
os ritos corretamente, não irão lhes faltar alimentos. Assim, irrigação, adubo
e/ou agrotóxicos não fazem sentido entre os Mbyá-Guarani. Basta “rezar” para
que as plantas cresçam. Realizando os ritos corretamente, é certo que os deuses
farão as plantas crescerem. Não tem erro! Tanto é que alguns Mbyá-Guarani, ao
falar desses ritos, afirmam que “mandam” as plantas levantarem.
Os
deuses – e os já de cada alimento –
integram um verdadeiro sistema de colaboração entre eles para tornar possível a
alimentação dos Mbyá-Guarani. Este é um ponto bastante delicado de ser
abordado, posto que os Mbyá-Guarani, com o intuito de preservar a sua cultura e
evitar estigmatizações, entre outros motivos, evitam falar sobre os eu sistema
xamânico-cosmológico com os Juruá. E,
nas poucas vezes que fizeram, geralmente apresentam um discurso medido, um
misto de explicação (para pontuar a identidade étnica), simulacro e ocultação
(para evitar estigmatizações). Quando os Mbyá-Guarani falam sobre as suas
divindades, geralmente mencionam apenas o nome de Ñanderu. Este é a principal divindade dos Mbyá-Guarani, geralmente
referido como “nosso pai eterno”. O fato de mencionar apenas o nome de Ñanderu e a ele atribuir as
características e funções de todas as outras atividades e, para os Mbyá-Guarani,
uma forma de simplificar as explicações para os Juruá. Como os Juruá são
monoteístas, nada mais lógico, aos olhos dos Mbyá-Guarani, do que tentar traduzir
o seu sistema xamânico-cosmológico nesses termos. Além disso, resumindo todo o
seu sistema a uma única divindade, eles estão, de certa forma, impedindo que os
Juruá dominem suas crenças e, assim,
protegem a sua cultura e evitam estigmatizações. Ou seja: “pros brancos não
entender”. Desta forma, tudo é Ñanderu.
Quem criou o milho? Ñanderu. Quem
ensinou a plantar? Ñanderu. E assim
por diante... Entretanto, os Mbyá-Guarani são politeístas. Qualquer pesquisador
que tenha uma vivência mais constante com eles observa facilmente que além de Ñanderu, existem Tupã, Jakaíra, Ñamandu (que também é um Ñanderu), entre muitos outros. Os kuery (grupos de indivíduos) encontrados
nas tekoa Mbyá-Guarani também existem
no domínio sobrenatural. Os já também
estão agrupados em kuéry. E existe
uma hierarquia entre esses deuses, sendo que o – digamos – “líder” de todos é Ñanderu. Só que são milhares – ou talvez
milhões – de deuses no panteão Mbyá-Guarani, pois muitos Mbyá-Guarani já se
tornaram deuses. Todos bem posicionados na linha hierárquica. Os Tupã kuéry, por exemplo, são inúmeros
seres que habitam o mundo sobrenatural e que estão subordinados a Tupã. Os Jakaíra kuéry, todos subordinados a Jakaíra. E assim por diante. O interessante é que essa hierarquia
se estende até os Mbyá-Guarani que habitam este mundo, deuses em potencial.
Então,
se é fato, como os Mbyá-Guarani costumam afirmar, que todos os seus alimentos
tradicionais foram criados por Ñanderu,
também é fato que os irmãos Kuaray e Jaxy dotaram estes alimentos de um nome,
de uma alma, e com isso estabeleceram as divindades que são os já dos alimentos. Como afirmou certa vez
um Mbyá-Guarani: “toda comida tem seu
dono... o seu próprio”. Assim, o milho tem um “dono”, o feijão outro, etc.
São seres espraiados na hierarquia sobrenatural. A estes deuses específicos, o
ao conjunto de deuses subordinados aos “donos” dos alimentos, que os Mbyá-Guarani
dirigem os seus ritos. Mas os ritos podem ser dirigidos diretamente a Ñanderu, que é o “chefe” de todos os já. Funciona mais ou menos assim: caso
um já não esteja atendendo as preces
dos Mbyá-Guarani, o jeito é “reclamar” com o chefe desse já. Então o sucesso no cultivo de cada diferente espécie alimentar
depende da correta execução dos ritos, da perfeita comunicação com os já e do bom “relacionamento” entre ambas
as partes. Isso explica, segundo os Mbyá-Guarani, porque num mesmo período e
terreno um cultivo pode render muito enquanto outro, quase nada. A safra de
milho pode ser boa enquanto a de feijão, má. É porque são alimentos com “donos”
diferentes.
O
poder, a força vital e as características dos deuses se estendem para as
espécies vegetais das quais eles são “donos”. É como se um pé de milho fosse
uma parcela da divindade “dona” dele. Como já exposto, a alma é o nome, e o
nome é o próprio ser. Por exemplo, um Mbyá-Guarani não se chama simplesmente
Verá; ele É Verá. E, aplicando isso às plantas, temos que os alimentos cultivados
nas roças são alma/nome/planta. A alma de uma planta é “uma parte” do seu já. Ou, simplesmente, a alma é o já. Assim, é interessante notar que a
roça, para os Mbyá-Guarani, é um espaço extremamente importante, digno de todas
as atenções. A roça é um ambiente onde a força e o poder sobrenatural se fazem
presentes – grosso modo, as divindades estão plantadas lá. Considerando as
características da horticultura Mbyá-Guarani, onde várias espécies dividem o mesmo
terreno, podemos especular que a força de diversos “donos” se fundem neste
ambiente. Se por um lado misturar espécies é aumentar o rendimento dos
alimentos cultivados pela “cooperação” entre as diferentes plantas, por outro
lado, ao semear diferentes plantas (com diferentes já), os Mbyá-Guarani estão aumentando o leque de forças
sobrenaturais que incidem sobre o terreno. Enfim, a roça é um lugar “sagrado’
para os Mbyá-Guarani.
Nesse
complicado quebra-cabeças de relação e colaboração de diversos deuses “donos”
das espécies na produção dos alimentos Mbyá-Guarani, destaca-se o papel de Tupã e/ou dos Tupã kuéry. Eles são “donos” de vários elementos da natureza,
inclusive alimentos. Tupã é geralmente
mencionado pelos Mbyá-Guarani como o já
da chuva. E tal qual acontece com os alimentos, Tupã é a própria chuva. Sendo assim, neste contexto de colaboração
entre deuses, Tupã é um colaborador
importantíssimo na criação e produção dos alimentos dos Mbyá-Guarani. Antes de
qualquer alimento ser criado, houve o aparecimento de Tupã, a chuva. Até hoje, para que qualquer planta brote, é
indispensável o aparecimento de Tupã.
Esse quando Guarani fizeram a rocinha e
não tem facão, bateram com esse pauzinho, bateram taquarinha, quebrando,
quebrando tudo e depois secou e depois botaram foguinho e queimaram bem
queimadinho e depois só cinza... Só virou cinza. Olhavam... O eu vamos plantar?
O que vai ser, né? Pensando. O Karaí... o Karai que pensava. Kuña-karai
pensava. E depois veio a chuva, a chuva forte, e... Derrampa os tronos, o
Ñanderu, o Tupã. Chove bastante e depois choveram dois dias. Chuva forte. E depois
passou e durava mais ou menos quatro, cinco dias. E depois eu caminhava, depois
de passar o tempo chuvoso, a dona da rocinha, né? Não foi plantado não. Eles nasceram
por si.
Ai despejaram Tupã. Ai depois outro
parte tem... Nasceram melancia. Depois outro parte nasceram abóbora. E, e assim
(...) já achava importante e... Cuidava aquele, cuidava muito, muito, muito, e
depois grande tem (...) Grande e depois no fim granando, que já tem grão. Quando
seco, juntamos aquele, não comeram, e depois acha bonito, espiga bonita, deixou
para semente, aí brotou de novo.
É a chuva! Tupã é o deus que tá no trono
e se derrampa, né? Derrampa e faz o trono e semia algum parte que quer bem o
deus. É ele que traz semente. Então esse ai que o governo não querem
compreender... Só de... Queria que compreendesse... Do fundo, do fundo do
corpo, do fundo dos cadáveres do ar, e quando na conversa, da sabedoria que ele
podia espalhar por todo o mundo. Ele não pensa pro índio. É isso ai. Tô dizendo
essa maneira porque eu sei (Mbyá-Guarani, 2005)
O
interessante do trecho acima é que Tupã
colaborou com as outras divindades para o surgimento das primeiras plantas e
desde então colabora – com outros já –
para a reprodução destas plantas. Outro fato interessante é que, pela
narrativa, desde o princípio os Mbyá-Guarani praticam o modelo horticultor que
eles chamam de tradicional – limpando o terreno e queimando os restos da
vegetação. E, mais interessante ainda, a forma tradicional de preparar as roças
surgiu antes mesmo de serem criadas as plantas tradicionais.
Tupã (ou
os Tupã kuéry) também é colaborador
nos alimentos de origem animal. Ocorre que, segundo os Mbyá-Guarani, toda água
que existe nesta terra é oriunda da chuva e todo animal precisa de água para
sobreviver. Assim, Tupã é fundamental
em toda a alimentação Mbyá-Guarani. E, como os Mbyá-Guarani também precisam
consumir água para sobreviver, Tupã é
condição necessária para a sobrevivência deles neste mundo. Sem a colaboração
de Tupã, não haveria água para beber,
para o crescimento dos alimentos cultivados nas roças e dos coletados nas
matas, para o crescimento dos peixes e animais caçados. Em suma, sem Tupã não haveria alimentos. E isso
também se aplica aos outros inúmeros já
dos alimentos Mbyá-Guarani. É por isso que os Mbyá-Guarani precisam manter um
bom relacionamento com os diferentes já,
preposto dos deuses. E esse bom relacionamento passa por uma boa comunicação
ritual.
Portanto,
cada planta cultivada pelos Mbyá-Guarani em suas roças possui uma posição
precisa na cosmologia Mbyá-Guarani, uma alma. Isso faz com que a “reza” – como falam
os Mbyá-Guarani para os Juruá compreenderem
– seja um dos elementos das técnicas de cutlivo.
Texto de
Mártin César Tempass,
in
“Quanto mais doce, melhor – um estudo antropológico das práticas
alimentares da doce sociedade Mbyá Guarani”
AGUYJE - TORNAR-SE DEUS
O
objetivo de todo Mbyá Guarani nessa “terra imperfeita” (yvy pyau) é alcançar o AGUYJE,
é tornar-se também uma divindade. Eles são descendentes dos deuses. Dentre
todos os seres que habitam a porção telúrica da yvy pyau, os Mbyá Guarani se consideram como “os escolhidos dos
deuses” (P.Clastres, 1990; H. Clastres, 1978). Escolhidos para também se
tornarem deuses. A divindade é uma possibilidade para os Mbyá Guarani, desde
que respeitem algumas regras cosmológicas, estabelecidas pelos deuses
exclusivamente para o aguyje Mbyá
Guarani. São uma série de regras que estão estreitamente interligadas, sendo eu
as mais elementares são as regras alimentares. Assim sendo, com as regras
interligadas, resulta que todas as regras para o aguyje estão direta ou indiretamente relacionadas à alimentação do
grupo. E, em sentido inverso, a partir da alimentação pode-se compreender toda
a organização sócio-cosmológica dos Mbyá Guarani.
O
caráter dual da alma Mbyá Guarani é consenso. Porém não se resume apenas à
alma, mas também ao corpo. Entre os Mbyá Guarani não se pode isolar os domínios
da natureza, da sociedade e da sobrenatureza. O mesmo se aplica na relação
corpo e alma: eles são construídos e operados em conjunto. Um define o outro. O
aguyje (a perfeição do ser) só é
alcançado se corpo e alma estiverem “perfeitos”, pois não é apenas a alma que
“vai” para a morada dos deuses; o corpo precisa “ir” junto.
Se
todos concordam com o caráter dual da alma Mbyá Guarani, não há consenso sobre
o número de almas que eles possuem. Esse número varia de informante para
informante, variando entre uma e quatro. Mas independente do número de almas
declaradas, sempre há ao menos uma alma de origem sagrada e outra de origem
telúrica. Os Mbyá Guarani costumam se referir às suas almas simplesmente como
“a alma”, talvez por uma alegoria didática, talvez porque efetivamente há
apenas uma alma, mas com duas porções distintas, uma telúrica e outra sagrada.
Em suma, em qualquer uma das configurações, os Mbyá Guarani sempre possuem
alma(s) híbrida(s) de natureza (telúrica) e de sobrenatureza (sagrada). E,
mesmo nesse foco reduzido, ambas as almas – ou ambas porções da alma – nunca
podem ser analisadas separadamente, posto que operam em um mesmo veículo, o
corpo. Neste caso, o corpo pode ser comparado a uma gangorra: quando a alma
sagrada “sobe”, a alma telúrica “baixa”. Não há condições para que ambas
“subam” ao mesmo tempo.
O
corpo é o veículo da(s) alma(s), é o seu habitat.
Mas, como tudo é “caminho” para os Mbyá Guarani, é possível afirmar que a(s)
alma(s) “circulam” pelo corpo dos indivíduos dessa etnia. E, de fato, se
“caminhar” é manter-se vivo (Pissolato, 2007), a(s) alma(s) precisam “circular”
pelo corpo para também se manterem vivas. Mas cada diferente alma – ou porção da
lama – possui o seu “caminho”. Ocorre que o corpo, por associação, também é
dividido em porções telúricas e sagradas. Agrupando as diferentes partes do
corpo humano, podemos estabelecer que o conjunto carne e sangue é o “caminho” da(s) alma(s) telúricas, enquanto o esqueleto é o “caminho” da(s) alma(s)
sagradas.
A
circulação da alma sagrada é que mantém o esqueleto e, consequentemente, os Mbyá
Guarani, eretos. Ela é a “alma-palavra” (Ferreira, 2001; H.Clastres, 1978),
somente “eretos” os Mbyá Guarani podem pronunciar palavras. É ela que mantém
“erguido o fluir do dizer” (Cadogan, 1997). O esqueleto e a fala são condições
da alma sagrada. Tanto a palavra quanto o andar ereto são distintivos dos Mbyá
Guarani frente aos animais. O Mbyá Guarani que não puder falar não poderá
andar, e vice-versa. A fala circula pelo esqueleto ereto. Qualquer um dos
sintomas – não andar e/ou não falar – é um sinal que a alma sagrada está
abandonando o corpo Mbyá Guarani, ou está sendo vencida pela alma telúrica.
Isso para o Mbyá Guarani significa a morte! Ou significa adentrar o domínio da
animalidade, posto que não falar e/ou não andar ereto é característico dos
animais.
A
perfeição do ser objetivada pelos Mbyá Guarani – que é o AGUYJE –, consiste em ampliar a porção sagrada do conjunto corpo e
alma e, com isso, diminuir a porção telúrica. Segundo Hélène Clastres (1978), o
aguyje é a aniquilação da má
natureza, restando apenas o esqueleto e a palavra nele contida. O aguyje é alcançado quando o conjunto
sagrado aumentar a ponto de “eliminar” o telúrico. A alma sagrada deve ser cem
por cento da alma dos Mbyá Guarani. A porção sagrada do corpo também, por
associação, precisa atingir a completude do corpo. O interessante é que a alma
sagrada “aumenta” e, com isso, ocupa o “lugar” da alma telúrica, mas no corpo
isso não ocorre, pois a porção sagrada não pode ocupar a telúrica. Assim, o
corpo precisa, obrigatoriamente, diminuir. Deve restar, quase, somente o
esqueleto. Em suma: no processo do aguyje,
o corpo diminui enquanto a alma aumenta – sempre no que tange as porções
sagradas.
Os
alimentos tradicionais proporcionam isso. Eles alimentam mais as porções
sagradas do que as telúricas. “Para os
Guarani, alimentar o corpo também significa alimentar a alma; não se alimenta
um sem alimentar o outro, não há, no pensamento mítico guarani, uma dicotomia,
uma oposição monolítica entre alma e corpo” (Carvalho, 2005).
A
magreza é, então, a condição do aguyje.
Somente com um corpo “leve” e “limpo” é que se pode ascender ao mundo
sobrenatural. Esse ascender, literalmente, significa que, com a perfeição, os Mbyá
Guarani podem “levitar” ou “flutuar” até a morada dos deuses. Isto ocorre com
eles ainda “vivos”, pois o aguyje
também pode ser considerado o vencimento da morte. O “leve” significa poder vencer
a gravidade; e o “limpo” significa “limpar” o corpo das porções telúricas
indesejadas. Nos dois casos, só se obtém êxito a partir do controle da
alimentação.
Ocorre
que o conjunto corpo-alma de um Mbyá Guarani nunca “é”, ele sempre “está”. Ele
“está” magro e/ou limpo. Os corpos e almas, sempre ambos na mesma direção, são
construídos e reconstruídos diariamente. É um processo longo em que cada dia se
“caminha” bem pouco. O que hoje pode estar mais “leve”, mais “limpo” e mais
“sagrado”, amanhã pode estar o contrário. Tudo depende da alimentação.
Para
atingir o aguyje, em primeiro lugar,
é preciso evitar os alimentos que possam levar á animalidade. Aliás, o que pode
levar à animalidade nem é considerado “alimento” pelos Mbyá Guarani, são tabus
alimentares. Em segundo lugar é preciso comer apenas alimentos tradicionais,
apenas orérembiú. Mas, dentre os alimentos tradicionais existem os que
são mais e os que são menos indicados para alcançar o aguyje. Tal qual o corpo humano, os Mbyá Guarani também classificam
seus alimentos em duas categorias: os do “esqueleto” e os da “carne-sangue”.
Grosso modo, os alimentos de origem vegetal são os do esqueleto. Também o mel,
o ixó, os peixes e o koxi fazem parte dessa categoria. As
carnes de caça e todos os alimentos de fora dos sistema culinário tradicional Mbyá
Guarani são considerados como da carne e do sangue. Mas, mesmo dentro dessas
categorias, existem hierarquias, sendo que alguns alimentos são melhores do que
outros para atingir o aguyje.
Os
alimentos mais indicados para aperfeiçoar corpos e almas são os que também são
os menos “temidos”, ou os menos complexos em relações recíprocas entre seres
dos diferentes domínios. Quanto maior a cadeia alimentar de uma comida – e/ou a
sua variedade de alimentação –, maiores são as relações recíprocas contidas
nela. É por isso que se alimentar de vegetais exige menos cuidados do que a
alimentação com carnes de caça. Na carne de caça estão contidas “marcas” dos
inúmeros já que propiciam a caça e de
outros já, donos de outros seres,
como as plantas, por exemplo, que proporcionam a vivência da caça em seu
habitat. Também na caça ficam as marcas dos alimentos, que também possuem já, que o animal come. Como para a
existência de cada alimento é preciso que haja reciprocidade entre vários já, no caso “dos alimentos dos
alimentos” (cadeia alimentar) este número de relações recíprocas é muito maior,
posto que a atuação dos seres é cumulativa. Temos, assim, que quanto mais já estiverem em uma comida, menos
indicada ela será para alcançar o aguyje.
Os
vegetais envolvem menos já, posto que
têm reduzidas possibilidades alimentares (terra, água, ar e sol). Os ixó, por exemplo, também são altamente
indicados para o aguyje. Eles se
alimentam unicamente da madeira da pindó. Eles só precisam da pindó para viver,
pois eles vivem dentro do tronco desta palmeira. Sendo assim, eles têm poucos já envolvidos na sua existência. Os Mbyá
Guarani se referem o ixó como o
alimento mais “limpo e puro” que pode existir. O mesmo vale para o pirapé, peixe que segundo os Mbyá
Guarani é o mais limpo de todos, pois ele come apenas o limo das pedras do
fundo dos rios.
(...) pirapé, ele é peixe muito boa. Ele
é considerado sagrado porque ele não come muita coisa. Prá nós é sagrado porque
criou deus, mas ele tem uma comida só. Por isso ele é sagrado. Ele não tem
dente, só boca. Por isso é sagrado. A gente se alimenta de tudo o que vem, ta
estragando o corpo. Se tem uma comida certa, tem saúde. Mas se come várias
coisas, não é alimento sagrado. Cada bicho sagrado tem um alimento só. Por isso
o alimento é muito bom. A carne é muito saudável. Não é contaminado. (Mbyá
Guarani, 2008)
Temos,
então, que quanto mais limitadas as opções de alimentação de um animal ou
vegetal, mais limpo ele será enquanto “comida”.
Mas
isso não se aplica apenas aos ingredientes em si, mas a todas as etapas que
resultam na elaboração de uma comida. Não é só o milho que deve ser o mais
limpo possível, mas também os pratos preparados a partir do milho, como o rorá, o mbojapé, o kagueji, etc.
Além
do ingrediente propriamente dito, também os pratos preparados com ele,
juntamente com outros ingredientes, possuem uma hierarquia no que diz respeito
à obtenção do aguyje. Na junção de
vários ingredientes podem haver mudanças na hierarquia. O milho pode ser o mais
recomendado para alcançar o aguyje,
mas um prato que misture milho com amendoim, em uma farofa (pixé), pode ser menos recomendado. Tudo
depende de quais os ingredientes que são misturados. O kagueji, por exemplo, pode ser feito de milho misturado com
batata-doce, e é considerado um dos alimentos mais indicados para a obtenção do
aguyje. No entanto, apesar desta
possibilidade, a grande maioria dos pratos da culinária Mbyá Guarani envolve
apenas um ingrediente, como por exemplo, rorá,
xipá, andai mimói, avaxi mbity, avaxi cuí, etc.
O
simples é que é o belo, que é o gostoso. Quanto mais simples, menos se
“modifica” a criação divina. Em suma, quanto mais simples, mais sagrado. Mas,
de simples mesmo é só o reduzido número de ingredientes. Câmara Cascudo,
falando dos “indígenas em geral”, observou que estes grupos não misturavam os
seus muitos ingredientes para a preparação de um único prato. Nas palavras do
autor, os indígenas “não cozinham os
alimentos conjuntos. Feijão é só feijão. Milho é só milho” (Cascudo, 1983).
Para o autor, isto representa uma limitação culinária dos indígenas que, ao não
misturarem ingredientes, perderiam de elaborar pratos melhores. Entretanto, no
caso dos Mbyá Guarani, o “melhor”, tanto em termos cosmológicos como de
paladar, é o simples, é o que possui apenas um ingrediente ou poucos
ingredientes.
Mas
de nenhuma maneira isso significa que os indígenas não possuam elaborações
culinárias com vários ingredientes ou que estas não sejam muito apreciadas.
Pelo contrário, existe uma infinidade de pratos com vários ingredientes.
Apenas, no cômputo geral, estes pratos são menos expressivos no que tange o
gosto e a busca do aguyje. De forma
nenhuma pode-se pensar que a ausência de pratos mais “elaborados” em termos de
ingredientes significa uma incapacidade culinária deste povo. A sua culinária
possui pratos muito elaborados, mesmo que com poucos ingredientes.
Mesmo
combinando poucos ingredientes, o ideal para os Mbyá Guarani é que haja
“mistura”. Aliás, arrisco afirmar que a mistura alimentar ocorre em todas as
sociedades indígenas. Basta lembrar que a farinha de mandioca (também a de
milho) é de origem indígena, sendo um dos emblemas culinários destes grupos.
Pois bem, como observou Roberto DaMatta (1984), a farinha de mandioca proporciona
as misturas, sendo por isso considerada como um alimento relacional. Ela serve
para unir em um único conjunto as diferentes comidas.
Os
Mbyá Guarani podem comer, sem nenhum problema, apenas jety mbijy (batata-doce assada) em uma refeição. Mas isso ocorre
somente em casos excepcionais, durante uma expedição à mata ou um período de
escassez. O ideal é sempre ter no mínimo dois “pratos” numa refeição (e nunca
mais de quatro pratos). Por exemplo: a jety
mbijy fica melhor se acompanhada por uma carne de caça. Ou o mbojapé é melhor se for regado com mel.
Ocorre que para os Mbyá Guarani comer apenas um alimento repetidas vezes – três
ou quatro refeições seguidas – leva ao aparecimento de vermes em seu sistema
digestivo. Com os vermes o ventre se avoluma e com isso a porção de carne e
sangue do corpo aumenta em relação ao esqueleto. Assim sendo, os vermes podem
ser fatais. O interessante é que os “alimentos’ preferidos para o aguyje são os que comem apenas um único
alimento, como o ixó e o pirapé. Mas se os Mbyá Guarani comem
apenas um alimento repetidas vezes, não atingirão o aguyje e ainda correrão o risco de se transformarem em animais. O
risco da animalidade está sempre presente quando são aumentadas as dimensões
corporais, pois um corpo muito pesado não pode ser suportado pelo esqueleto
que, então, perdendo sua condição de ereto, desapropria dos Mbyá Guarani a
condição de andarem eretos e falarem, condições delimitadoras da humanidade.
É
também por essa razão que os Mbyá Guarani comem com parcimônia. Eles comem
muito pouco em comparação ao volume alimentar da sociedade envolvente. Os
animais devem ser “gordos”, os humanos magros. Mais uma vez a comida e o
comedor se encontram em posições antagônicas. A “comida” deve se alimentar sem
misturas, enquanto os comedores precisam misturar comidas. A “comida” gorda é
apreciada, mas os comedores devem ser magros. Seria isso um embodiment ao contrário? Não, o “gordo”
da comida levará ao “gordo” do corpo. A chave de tudo está na quantidade
ingerida. Comer pouco é mais importante que comer muito dos alimentos
recomendados para o aguyje. O pouco
leva à divindade; o muito, à animalidade.
É
justamente na comunicação com a divindade que se deve ingerir poucos alimentos.
Os Mbyá Guarani realizam os seus ritos na opy
à noite. Os ritos consistem em uma comunicação com o mundo sobrenatural. Para
ter êxito nesta comunicação, os Mbyá Guarani afirmaram nunca comer nada à
noite. Jantar atrapalha. Ocorre que os ritos Mbyá Guarani sempre são
acompanhados de danças. Para poder dançar é preciso estar com o corpo leve. Já
Elizabeth Pissolato (2007) assinala como problema apenas o consumo de carne nas
refeições vespertinas, pois as carnes deixam os Mbyá Guarani cansados, os
impedindo de dançar a contento.
O
corpo “pesado” atrapalha a dança, mas também, ao contrário, a dança deixa o
corpo leve. Ela é um dos “antídotos” contra equívocos alimentares. Com o
exercício da dança são gastas as calorias ingeridas a mais. A dança também faz
o corpo suar. Juntamente com o suor são eliminadas as impurezas do corpo. O
suor é salgado e o salgado é “impuro”, enquanto o “doce” é puro. O suor limpa o
corpo, ele dessalga o corpo, deixa o corpo doce. Em suma, a dança limpa e dá
leveza ao corpo. A dança faz parte da alimentação Mbyá Guarani.
Outro
“antídoto” empregado pelos Mbyá Guarani para comer pouco é a caá, a erva-mate. Embora os Mbyá Guarani
considerem a caá um dos seus mais
importantes alimentos, ela, na realidade, constitui um anti-alimento. É o comer
para não-comer. Ela é ingerida em grande quantidade para que outras comidas
possam ser ingeridas em pequena quantidade. Ela ameniza a fome e o cansaço.
Ocorre que a erva-mate, também conhecida yerba,
contém carboidratos, proteínas, potássio, ferro, cálcio, vitaminas A, B2
e C. Também tem flavonóides que lhe dão a propriedade antioxidante.
A
preparação do caá é a primeira
atividade dos Mbyá Guarani após acordarem, ainda no koenjú. Seu consumo logo pela manhã é justificado porque os Mbyá
Guarani já acordam com fome, depois de terem se alimentado pouco – ou nada – e
dançarem algumas horas na opy, na
noite anterior. O seu consumo pela manhã retarda o consumo do “desjejum”,
fazendo também com que uma menor quantidade de alimentos seja ingerida nesta
ocasião. O consumo da caá também é um
momento de intensa sociabilidade entre os membros da unidade de comida. É pela
manhã, em torno da fogueira, quando a cuia de caá circula de mão em mão, que um grande grupo de indivíduos se
reúne para conversar, sobretudo sobre os sonhos que tiveram na noite anterior.
É interessante que durante o consumo da caá
pode-se conversar livremente, já na ingestão de qualquer outra comida os Mbyá
Guarani se mantém quietos.
A
caá é um dos itens que os Mbyá
Guarani mais sentem falta, pois além do efeito de amenizar a fome, ela propicia
alegrias, as conversas sempre são mais animadas quando uma cuia está em
circulação. Para os menores de doze ou treze anos não é recomendado o consumo
de caá, pois nessas idade elas
precisam comer para se desenvolver. Já para os adultos, a caá tem premência sobre os outros alimentos.
o
kagueji também é considerado um
alimento “antídoto” contra equívocos alimentares. Ele limpa o corpo, mantém e
proporciona à alma sagrada uma boa comunicação com as divindades. Por kageji compreende-se um conjunto de
bebidas tradicionais de uso ritual, que possui como ingrediente base o milho. Kageji é, então, uma designação
genérica. Ele pode ser tomado a qualquer momento do dia, na quantidade que o
consumidor desejar. O excesso de kagueji
não faz mal. Pelo contrário, quanto mais, melhor. A única regra que limita o
consumo é que o kagueji disponível
deve ser consumido de forma equivalente por todos os membros da unidade de
comida. Uma pessoa não pode tomar muito kagueji
de forma que não sobre para os demais. O kagueji
pode ser “forte” (fermentado, alcoólico) ou “fraco” (sem fermentação),
dependendo do tipo e do tempo de descanso entre a preparação e o consumo. Nas palavras
de um Mbyá Guarani: “Fica bêbado também. O
kagueji é nossa bebida. Deixa dois, três dias... já fortinho. Dá assim a mesma
coisa que bebida de álcool. (Mas) essa é natural” (Adorfo, 2005). Forte ou
fraco, todos os tipos de kagueji
podem ser bebidos por todos os indivíduos. Não há restrições nem para as
crianças, que adoram a bebida. “Pode
tomar todo o dia, ou se não de manhã, se não de meio dia ou de tarde. A hora
que quiser, né?” (Adorfo, 2005).
No
entanto, o kagueji deve ser consumido
nos contextos rituais, o que ocorre geralmente à noite dentro da opy. O seu consumo dá sensação de leveza
ao corpo, alterando de certa forma o estado de consciência. Ele propicia
felicidade aos bebedores, fazendo com que as rezas/danças na opy sejam melhor executadas. Combinando com
o consumo do tabaco, ele abre os canais de comunicação com os deuses, o que faz
dos xamãs os maiores consumidores da bebida. Não existe xamã sem kagueji. Por extensão – já que a
comunicação com os deuses proporciona os alimentos – não existe comida sem o kagueji. Ele é a principal de todas as
comidas, ele proporciona as outras comidas e ele alimenta apenas a parte
sagrada do conjunto corpo-alma dos Mbyá Guarani.
Grosso
modo, qualquer pessoa pode preparar o kagueji.
Inclusive os homens poderiam, porém, são sempre as mulheres que preparam. Mas,
dependendo do tipo de kagueji e da
sua finalidade ritual, o ideal é que seja preparado por pessoas de “corpo limpo”
e “respeitadas” na sociedade. Isso porque quem prepara o kagueji transmite suas características à bebida. Os kagueji consumidos no dia-a-dia, como “refresco”,
não precisam de muitos cuidados. Já os que serão consumidos na opy devem ser preparados por indivíduos
que estejam quanto mais “limpo” possível. Mulheres menstruadas, por exemplo,
não podem preparar o kagueji.
O
kagueji “mais poderoso” para o uso
ritual tem como ingrediente principal o milho verde. Os outros dois
ingredientes são a saliva e a água. O milho verde deve ser mastigado por
meninas novas (que ainda não menstruaram nem tiveram relações sexuais) e logo
depois cuspido em um coxo. A mastigação atribui saliva ao milho, que irá
promover a fermentação. Então é só esperar o período necessário a esta fermentação
para poder ser consumido. Este kagueji
fica bem “forte” e com os sabores realçados. Como observou Cascudo, “na diástase da saliva a ptialina transforma
o amido das raízes e dos frutos em maltose e dextrina, provocando a
sacarificação, resultante dos ácidos orgânicos sobre os açúcares” (Cascudo,
1937).
O
seu Adorfo é karaí (xamã), mas por
uma série de razões, a sua unidade de comida é bastante reduzida. Até outubro
de 2006 ele vivia apenas com sua esposa e dois netos. E, não havendo uma
menina, eles não tinham como produzir o kagueji
“mais poderoso”. Sendo seu Adorfo um karaí,
ele necessitava muito do consumo desse kagueji
para poder entrar em contato com o mundo sobrenatural. A solução para este
problema veio do estado do Espírito Santo: uma de suas netas, de apenas cinco anos,
foi designada para ir morar com o avô e mastigar o milho para o kagueji.
Há,
também, o kagueji guaxu, feito de milho
“seco” pilado bem fino e cozido brevemente. Este kagueji deve ser preparado com no mínimo um dia de antecedência ao
seu consumo, para poder fermentar. Ele fica “um pouquinho forte”. Em uma outra
variedade deste kagueji pode ser
misturado um pouco de milho “quebrado” (tipo canjica) ao cozimento. Em oposição
ao kagueji guaxu, existe o kagueji mirim, que pode ser consumido
logo após o seu preparo, mesmo aidna quente. Para a preparação do kageji mirim um pouco de milho “seco” é
pilado e depois são acrescentados pedaços de batata-doce, continuando o
trabalho com o pilão até que tudo vier uma única pasta. Como resultado,
obtem-se uma bebida muito cremosa. O kagueji
mirim é também conhecido como kagueji
obaipy, ou simplesmente obaipy. Outros
tipos de kagueji também podem ser
produzidos como o kagueji mirim,
substituindo a batata-doece por abóbora ou simplesmente acrescentando um pouco
de abóbora. Também pode ser empregado o milho verde e/ou a canjica em acréscimo
ou substituição ao milho “seco” pilado bem fino. De qualquer forma, milho
sempre tem que ter.
Sob
hipótese alguma pode-se desperdiçar kagueji
. Sobretudo jogá-lo no chão; é uma afronta ao seu dono. Além disso, oferecer kagueji a um Juruá (branco) é, de certa forma, um desperdício. O kagueji é para os Mbyá Guarani, não serve
para os Juruá.
Dentre
outras bebidas produzidas pelos Mbyá Guarani, destacam-se a aroka e a mbypety. A aroka é o “hidromel”:
água adoçada com mel. Porém os Mbyá Guarani preparam a bebida usando favos de
mel. Depois de extrair o mel, para não desperdiçar o mel que fica retido nas
reentrâncias dos favos, estes são “lavados” em água. Esta água então é tomada
como suco, “suco de mel”. E os favos lavados são utilizados na fabricação de
velas e trabalhos artesanais. Ocorre que os favos também soltam um gosto muito
agradável no suco, melhor do que quando empregam apenas o mel. Nos dias frios,
sobretudo nas primeiras horas da manhã, esta bebida pode ser preparada com água
quente, adquirindo status de chá.
O
mbypety é o suco feito com o fruto da
palmeira pindó. Os frutos maduros são triturados no pilão, sendo depois
acrescentada água fresca. Esta é uma bebida emblemática dos Mbyá Guarani, sendo
considerada um poderoso alimento para a porção sagrada do conjunto corpo-alma. Alias,
todo alimento proveniente da palmeira pindó só faz bem aos Mbyá Guarani. E ela
proporciona muitos alimentos. O ixó é
um dos alimentos mais limpos que existe, sendo consumido preferencialmente
assado ou frito em banha de animal de caça. Todavia, só é possível comer ixó em dois meses do ano, setembro e
janeiro, seus meses de safra. O ixó
não existe em outras árvores, ele cresce apenas na palmeira pindó. Para obtê-lo
basta encontrar um tronco de palmeira em decomposição com pequenos orifícios
(por onde os ixó entraram na
madeira). Então, é preciso “escutar” o barulho das larvas comendo o tronco. Localizados
os ixó pela audição, é só quebrar a
madeira e coletar o alimento – o que é bastante fácil posto que a madeira está
em decomposição.
O
palmito da palmeira pindó, chamado pindóruã,
também é um alimento muito saudável e apreciado. Ele pode ser consumido cru,
embora para os Mbyá Guarani não exista pindóruã
cru. Ele “já é cozido natural”, não é preciso cozinhar. Neste caso, ele é muito
apreciado se for coberto com mel. Mas, na maioria das preparações com o pindóruã ele passa por um segundo
cozimento. Ele pode ser assado e comido acompanhado de mel e/ou carnes de caça;
pode entrar em cozidos de peixes ou de carnes de caça, ou pode ser um
ingrediente de sopa.
Os
frutos da palmeira pindó – guãpitá –
são muito apreciados. Eles são considerados “as balas dos Mbyá Guarani”, com a
vantagem de serem balas naturais. Os Mbyá Guarani não se importam de coletar
frutos do chão; o chão “não é sujo”. Mesmo estando danificados ou já mordidos
por outros animais, os frutos podem ser aproveitados. A polpa do fruto se
resume a uma fina camada que envolve um grande caroço. Dentro desse caroço há
uma amêndoa muito apreciada pelos Mbyá Guarani. Então, mesmo com a polpa
inaproveitável, os Mbyá Guarani coletam o guãpitá.
Estas amêndoas não entram em nenhuma elaboração culinária, sendo comida ao
natural. Porém o caroço do fruto é bastante duro, sendo necessário o emprego de
duas pesadas pedras para poder extrair a amêndoa. Mas até crianças de três ou
quatro anos possuem habilidade para obter a amêndoa.
Texto de Mártin César
Tempass,
in “Quanto mais doce,
melhor – um estudo antropológico
das práticas alimentares da doce sociedade Mbyá
Guarani”
RITUAL TUKANO DO YURUPARI
YURUPARI, ou RITO DE FRUTAS, é um ritual de iniciação dos jovens Tukano. É
realizado geralmente na ocasião da maturação de certas frutas. Grande
quantidade de frutas são trazidas pelos homens ao som dos instrumentos
musicais. O ritual propriamente dito acontece no fim da estação seca e no
início da estação chuvosa e dura três dias Durante o ritual as flautas que
representam os ancestrais são mostradas aos jovens. Os mais velhos da
comunidade tocam o instrumento dentro da casa, ao passo que os mais jovens (já
iniciados) tocam fora da casa. As mulheres não podem ver essas flautas, sob
pena de morte. Por isso durante o rito elas ficam na parte de trás da casa,
atrás de uma parede de folha de palmeiras entrelaçadas, colocadas na ocasião,
ou então embrenhando-se mata a dentro. As flautas são tiradas do rio, onde
habitualmente são guardadas fora dos períodos rituais.
Durante a
noite, o xamã purifica todas as substâncias que serão utilizadas durante o
ritual (tabaco, coca, ervas de poder, tinta preta e vermelha, etc). No dia
seguinte, as flautas são, de novo, colocadas dentro da água e os xamãs
distribuem o fumo cerimonial, a coca, o tabaco e a tinta preta para todos os
participantes. O dia passa-se em cantos. No início da noite, os iniciados, de
cabelos raspados, corpos pintados de preto, entram na casa nos ombros dos mais
velhos. Durante a noite, os homens lhes apresentam as flautas (que simbolizam
os ancestrais) ensinando-lhes a tocá-las. Mais tarde, um xamã açoita todos os
participantes para os tornar mais fortes. Estes se pintam de novo com tinta
negra e passam o resto da noite e o dia seguinte tocando flautas e cantando. No
terceiro dia os iniciados vão dormir, pela primeira vez, perto da parede de folhas
de palmeira, colocadas na parte de trás da casa.
Assim que
o dia amanhece, os iniciados vão tomar banho no rio e ao retornarem, entram
novamente na casa, carregados novamente pelos mais velhos, e as mulheres lhes
servem formigas saúvas e beiju de fécula de tapioca. As flautas são colocadas
dentro das folhas de palmeira e imergidas novamente no rio. Os iniciados são
isolados durante dois ou três meses em um compartimento especial da casa. O
período de reclusão é consagrado à aprendizagem dos mitos e tradições orais. O
fim da reclusão pubertária é marcado, também, por um banho ritual no rio.
Depois, com o corpo pintado de vermelho pelas mulheres, entram novamente na
casa, carregados pelos mais velhos como ”recém-nascidos”, e lhes dão para comer
peixe cozido na água com sal e pimenta. Pouco depois ocorre uma dança
comunitária, com a participação das mulheres, durante a qual são distribuídos
beijus a todos os participantes. Esse rito marca a reintegração do iniciado no
grupo patrilinear. O iniciado retorna depois, progressivamente, à alimentação
normal.
Texto de Berta G.
Ribeiro
sábado, 23 de agosto de 2014
CORPO TRANÇADO – CESTARIA E A RELAÇÃO MBYÁ-JURUÁ
O
encontro entre duas culturas, que pode ser compreendido pela categoria
interculturalidade, cujo prefixo inter expressa o sentido de interação,
troca, reciprocidade, indica a possibilidade de integração entre elas sem
anular sua diversidade, ao contrário, fomentando o potencial criativo e vital
resultante das relações entre diferentes agentes e seus respectivos contextos,
conforme argumenta Reinaldo Matias Fleuri (2005). É nesta perspectiva que
proponho pensar o corpo trançado, que na contemporaneidade se estabelece a
partir da relação mbyá-juruá,
considerando seu fundamento mítico original, sendo tal fundamento conectado às
novas experimentações que inspiram uma criação seriada, contínua e acrescida de
outros elementos. Frade e Reis (2010) argumentam que não se pode pensar nos artefatos produzidos
pelos Mbyá-Guarani sem levar em conta o esforço tradutório e interpretativo
sobre o que se encontra no mundo externo e o que se pode esperar dessa relação.
A
arte do corpo trançado encontra sua potência na cestaria, que é considerada como
marca identitária dos três grupos Guarani – Mbyá, Kaiowá e Nhandeva. O cesto (ajaka) é confeccionado com as
lascas do bambu, que por sua vez surgiu do orvalho, símbolo de Jachuka.
Da planta porongo, também símbolo de Jachuka, fabrica-se o mbaracá dos homens. Da
mesma fonte nasce o bambu, do qual se produz o bastão de ritmo das mulheres.
Dessas duas plantas surgiram a humanidade, homem e mulher (CHAMORRO ARGÜELLO,
2008). Corroborando essa interação, Ivori Garlet revela a relação intrínseca
existente entre o homem e a mulher. “O
Ser Criador bateu com seu arco no cesto e dessa ação originou-se o homem, que é
um corpo (rete) em forma de arco (guyrapa). Ele bateu no cesto pela
segunda vez, dessa vez com a taquara, e dessa ação surgiu a mulher, que é corpo
(rete)
em forma de cesto (ajaka)” (GARLET, 1997).
Os
Guarani acreditam que o trançado, que dá origem ao cesto, foi ensinado por Nhanderu para que
pudessem carregar as sementes do milho sagrado para serem plantados na roça ou
para guardarem o pão sagrado feito de milho (mboejape), referendado no
batizado das crianças – um ensinamento para a realização da vida. Segundo o
cacique guarani Vera Nhamandu Miri, é feito o mboejape (pão sagrado de
milho), que é posto no adjaka (cesto) e fica durante 24 horas na Opy (Casa
de Reza), o lugar mais sagrado da aldeia. Depois o oypirigua (pajé)
chama as crianças que irão receber o nome. Neste momento, o cesto proporcionará
alimento para o espírito. E, satisfazendo o espírito, o nome será bem cuidado,
bem recebido. No dia seguinte, os pãezinhos de milho serão dados aos pais e às
crianças.
No
tekoa, o adjaká é mais que coisa, mas ente, um corpo/memória,
possuindo a condição de sujeito/objeto. A espiritualização do adjaká possui
uma ontologia ambígua. O corpo-forma do cesto contribui na geração da
palavra, objeto pensado como extensão da pessoa, objeto trançado como ato sagrado.
(FRADE; CAMPOS, 2008).
Em
tempos remotos, as mulheres guarani utilizavam pigmentos naturais na coloração
dos filetes de taquara (da família do bambu) que contribuíam na formação dos
desenhos básicos tradicionais. O professor indígena Eloir Werá Xondaro traduz
no papel os grafismos mais recorrentes visualizados nos cestos mbyá-guarani: Ipara kora: grafismo fechado,
simboliza a pele de algumas cobras; Ipara
korente: grafismo em forma de corrente, simboliza as relações entre as
comunidades Guarani, seja de parentesco ou de amizade; Tanambi pepo: simboliza as asas de um tipo de borboleta; Ipara ryxi: grafismo em fila,
simboliza pessoas em fila indo para a caça, para a coleta de frutos, para a
pesca, para a busca de material para a confecção do artesanato.
Os
adjaká usados nos rituais realizados na Opy não podem ser
afetados por nenhum elemento externo. Devem ser criados com “elementos crus”,
ou seja, as lascas retiradas do bambu e do porongo não devem receber tintura
artificial, sendo assim, diferenciados daqueles que entram no circuito
comercial.
Na
Aldeia Tekoa Mbo’yty, Dona Lídia e sua mãe, Dona Juventina, exercitam sua
sabedoria na arte do trançado, uma matemática complexa geradora de superfícies
ritmadas. Cada trançado tem seu próprio autor, apontado através de grafismos
identificadores de determinadas famílias. As formas evoluem no cotidiano, novas
combinações são criadas e compartilhadas pelo grupo que as incluem em seu
repertório cesteiro.
Apesar
de designar tradicionalmente uma produção feminina, na Aldeia Tekoa Mbo’yty, alguns
homens colaboram na feitura dos cestos: uns vão à reserva mais próxima coletar
a taquara, uns ajudam no tingimento, outros na amarração inicial das fibras de
taquara, ou até mesmo na produção total de cestos. É também comum contar com a
colaboração de outras pessoas (homens ou mulheres), desde que pertencentes ao
mesmo núcleo familiar, no processo de preparação das fibras, que são lascadas
com a ajuda de uma lâmina delicada e afiada. Cada núcleo familiar desenvolve
esse processo próximo a sua habitação-oca, estabelecendo seu território de
criação coletiva. Uma trama resultante do entrelaçamento de fibras e também de
corpos.
Os
cestos, junto com outros objetos artísticos, encontram-se dispostos em uma
ampla bancada para serem comercializados aos turistas que visitam a aldeia. Os
objetos são dispostos por aproximações de categoria e autoria, que por sua vez
são agrupados de acordo com os núcleos familiares. Conferem um modo de
exposição segundo critérios estéticos autóctones. Essa disposição e agrupamento
se aproximam do modo como os Guarani concebem a organização social e
cosmológica do grupo no espaço/tempo (Ara Ypy), uma organização que
prima por seus núcleos familiares, sejam eles da ordem da natureza ou da sobrenatureza.
A
comercialização dos objetos artísticos se constitui como modo primordial de
subsistência, tornando a vida dos mbo’yty cada vez mais entrelaçada à dos
não-índios. Além do recurso material obtido pela venda dos objetos, essa
interação estabelece um espaço de diálogo intercultural, uma comunicação
estética mais ampla com o mundo externo e interno à sociedade mbyá-guarani. Um
modo de subsistir pela via da arte – uma economia que se dá na produção de
artefatos para o consumo externo – requer a ressignificação de sua cultura
material, um entendimento que permita incorporar esse novo significado do nhanderekó
mbyá-guarani, como argumenta Frade e Reis (2010).
O
cesto adquire outro estatuto. A vida dos objetos relaciona-se diretamente ao
universo que se pretende invocar. O sentido muda conforme o contexto no qual
cada objeto se insere. “Os contextos
podem mudar de forma radical, como acontece quando objetos e artefatos entram
no circuito comercial interétnico, quando se tornam emblemas de identidade
étnica, peças de museus ou ‘obras de arte’ ” (LAGROU, 2007).
Em
comparação à disposição e significação dos cestos tingidos e os
tradicionalmente sagrados no espaço da aldeia, é importante destacar as
modificações operadas sobre esses itens ao mudarem de contexto. Ao serem
transportados e reorganizados em museus, os cestos adquirem contornos de
artefatos componentes, a partir de então, da dinâmica que se realiza na
interação com um espaço reservado às instituições identitárias da arte
institucional. O espaço de projeção da arte do corpo trançado configura-se,
assim, em um ambiente imersivo, paisagem a ser desvendada pela incursão do
espectador, privilegiando-se sua dimensão estética.
Os
objetos da cultura material que no contexto tradicional tinham frequentemente,
valor espiritual, são apreendidos como objetos estéticos, ao mesmo tempo em que
são submetidos às leis de mercado do mundo da arte, conforme argumenta Stocking
Jr. (1985). Blanca Dian Brum (2004) pontua que inserir esses objetos em outro
sistema de representação quebra o elo de uma cadeia de significações, muitas
vezes inoperante, capaz mesmo de criar barreiras epistemológicas no sentido da
compreensão desses objetos e das sociedades que os produzem. Dessa forma,
ambos, propõem a ampliação das categorias de apreensão e compreensão dessas
produções estéticas, dessas sociedades e das práticas que as envolvem,
compreendendo-as como textos simbólicos, como discursos que são uma dimensão
fundada na oralidade. “Tudo significa,
tudo é texto, que devemos aprender a ler, tudo é discurso que devemos aprender
a ouvir para poder efetivamente mergulhar nessas culturas, compreendê-las e respeitá-las”
(BRUM, 2004).
Os
professores guarani Arnildo Werá e Eloir Werá Xondaro, ao visitarem a exposição
no Museu do Índio – RJ, reclamaram da falta de um monitor nativo para falar um
pouco sobre o contexto em que os objetos são produzidos – “apresentar seu olhar
sobre si mesmo”. Estranharam também a seleção dos objetos expostos no museu,
pois concebiam que veriam “coisas de antigamente”, que remetessem à história de
seus ancestrais, como arcos, flechas e lanças; panelas produzidas com argila;
pratos, colheres e canecas confeccionadas com sementes; colchão feito de folha
de palmeira trançada; instrumentos, entre outros, que a memória dos jovens não
alcança.
Não
sei, talvez eu possa estar errado. É algo importante que está sendo mostrado
aqui, mas isso é da atualidade. Se a gente voltasse um pouco para a
antiguidade, para a história dos nossos ancestrais, veríamos coisas diferentes
aqui, uns instrumentos diferentes e até mesmo o artesanato um pouco mais
diferente. Mas isso não quer dizer que isso aqui não é importante para a
sociedade guarani hoje em dia. Isso aqui é uma exposição de grande importância
para nós. Através dessa exposição talvez a sociedade dos juruás dê mais importância ao povo
Guarani. Não só aqui no Rio de Janeiro, mas em todo o território nacional. Isso
é de muita importância para nós. São iniciativas assim que nos fortalecem. Os
Guarani estão sendo um pouco esquecidos. Muito se fala de índio, mas pouco se
fala dos Guarani. Existem várias etnias no Brasil. Principalmente os Guarani do
Sul, de onde eu venho, é pouco falado, pouco lembrado. Os Guarani estão aqui no
Rio de Janeiro, em São Paulo, no Sul, em Santa Catarina, na Argentina e no
Paraguai. O povo Guarani está vivo, sua cultura está viva, seus costumes estão vivos.
Então, isso nos fortalece, não só fortalece como uma aldeia, mas como um todo,
o povo no geral assim. Eu fico feliz pelos meus parentes terem conseguido esta
oportunidade de estar mostrando um pouco das aldeias. E eu parabenizo esses
guerreiros pela coragem também de estar expondo isso assim. Também fico muito
feliz. Mas, o importante é mostrar a iniciativa, mostrar o suficiente para a
sociedade conhecer um pouco da cultura guarani, mas isso não é suficiente
(Depoimento de Eloir Werá Xondaro, 2010).
Há
ainda muito a se fazer no campo da patrimonialização e/ou musealização dos bens
materiais e imateriais indígenas dos Mbyá-Guarani. Há que se pensar outras
políticas públicas de valorização, reconhecimento e conservação da cultura
material e imaterial indígena, mas certamente políticas que contemplem o
protagonismo indígena. Nesse sentido, o Museu do Índio apresenta algumas
iniciativas como essa exposição, ainda que com uma participação “tímida” dos
índios, bem como com oferecimento de cursos no campo museológico que
qualifique, os próprios Guarani, como pesquisadores de sua cultura, conforme
dito por José Carlos Levinho (2010), diretor do Museu do Índio: “Tem que ter
formação, tem que ter qualificação, fornecer as ferramentas e deixá-los
administrar e mostrar também os caminhos, porque não adianta fazer um feijão
com arroz sem qualidade”. Mas como o próprio Guarani Eloir (2010) salienta:
“isso não é suficiente”.
Baseado em texto de Maria Cristina
Rezende de Campos –
“A arte do corpo mbyá-guarani:
processos de negociação, patrimonialização e circulação de memória”
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